quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Os Anos 40 e a Resistência Matemática


1 - A geração de 70 contra o isolamento

Na noite de 27 de Maio de 1871, no Casino Lisbonense, Antero de Quental inaugurou um conjunto de conferências - as Conferências Democráticas do Casino - falando sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos. Começou assim ([15], p.255):

«A decadência dos povos do Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história; pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de forças gloriosas e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo

Dias antes, em 16 de Maio, Adolfo Coelho, Antero de Quental, Augusto Soromenho, Augusto Fuschini, Eça de Queirós, Germano Meireles, Guilherme de Azevedo, Batalha Reis, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Salomão Sáragga e Teófilo Braga anunciaram a realização das conferências [[16], pp. 253 - 54). Depois de lembrarem que

«Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo»

proclamavam os objectivos das conferências, nomeadamente,

« (...)
- Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada.
(...)
- Estudar as condições das transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa.»

Assim as conferências visavam essencialmente romper o isolamento do povo português, tão deplorável desde meados do século XVI. Mas os governos autoritários ou ditatoriais, que quase sempre têm governado Portugal, opõem-se, com mais ou menos violência, a que se rompa tal isolamento e, em 26 de Junho de 1871, o Presidente do Conselho de Ministros proibiu a conferência que Salomão Sáragga ia realizar nesse dia e todas as seguintes, a pretexto de que nelas se expunham

«doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas do Estado.» ([18], p.198)


2 - A Inquisição e o isolamento

Um instrumento poderosíssimo para aumentar o isolamento português no século XVI foi a Inquisição, para cuja a instalação em Portugal, colaboraram estritamente a realeza, o alto - clero e a nobreza. As classes dominantes estavam interessadas no isolamento do povo português relativamente aos outros povos e de uns portugueses relativamente a outros portugueses, para matar à nascença qualquer movimento popular parecido com aquele que, em 1838, elevou o Mestre de Avis e Regedor e Defensor do Reino.

Em 1531, D. João III pediu licença ao papa para instalar a Inquisição em Portugal; em 1536, foi concedida a licença e, em 1541, realizou-se o primeiro auto de fé.
Violando ostensivamente o mandamento "Não matarás", os autos de fé, só até 1732, penitenciaram mais de 23000 pessoas e queimaram 1454, segundo conta Oliveira Martins ([10], 2º vol.,p.192). O número de assassinados não inclui os encarcerados mortos pelas torturas sofridas.

Que a Inquisição foi um instrumento ao serviço das classes dominantes é o que nos diz o historiador Jaime Cortesão, na obra "Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid" (vol.1, p. 98)

«A Inquisição e o fanatismo inquisitorial eram apenas um dos aspectos da perversão do espírito religioso e da subordinação da Igreja ao absolutismo do Estado. Sob os efeitos dissolventes do ouro, o Estado, a nobreza e o alto - clero haviam-se dado as mãos para impor a lei despótica dos seus interesses.»

As destruições causadas pelos inquisidores estão evocadas na mesma obra de Cortesão ([3], pp. 97 -98):

«Regiões ou vilas foram verdadeiramente devastadas, D. Luís da Cunha exclamava com angústia: "veja-se o que foram as províncias da Beira e Trás-os-Montes e, nelas, os lugares de Fundão e Covilhã, as cidades da Guarda, Bragança, etc., onde floresciam as manufacturas e o comércio, e o que agora são, depois que nelas entrou a Inquisição a prender e a destruir os seus moradores.»


3 - Agrava-se a decadência

O isolamento provocado pela Inquisição e o tipo de ensino praticado pela Companhia de Jesus provocaram um extraordinário atraso científico, cultural, moral e social. Garção Stockler no seu Ensaio Histórico sobre a origem e o progresso das Matemáticas em Portugal, publicado em 1819, escreveu (p. 151):

«É quse incrível a pressa com que as ciências retrogradaram em Portugal, desde que o senhor Rei Dom João III, com o piedoso fim de preservar a nação Portuguesa do contágio das inovações religiosas e princípios heréticos que infestavam o Norte da Europa, se determinou a adoptar no seu Reino instituições repressivas da livre comunicação das ideias.
Um tribunal supremo (...) foi encarregado não só de pesquisar e punir aqueles erros que, sendo meras alucinações do entendimento ou consequências inevitáveis da falta de uma virtude sobrenatural, eram, contudo, nos códigos daquele século, considerados como crimes enormes, mas também de impedir a publicação e entrega no Reino de todos os livros cuja leitura lhe parecesse perigosa

Relativamente à Companhia de Jesus, disse Stockler (p. 152):

«A instrução pública da mocidade foi encarregada a uma ordem regular de recente data (...).
Por estes dois meios reunidos, ganhou a Ordem sacerdotal o mais absoluto domínio sobre os espíritos dos Portugueses e adquiriu toda a facilidade de dar-lhe, não só aquela direcção que mais convinha aos interesses da Religião, mas a que mais acomodada fosse aos seus interesses.»

E mais adiante (p.156),

« ... e os ânimos dos homens já feitos (...), aterrados pela espada sempre desembainhada e pelos fachos sempre acesos da inquisição, sem se atreverem a examinar as produções científicas dos países situados além dos Pirineus, olhavam todas como frutos envenenados que, debaixo de uma doçura aparente, encobriam os princípios da destruição e da morte.»


4. Reflexos no ensino

As consequências desta orientação para o ensino foram naturalmente as mais lamentáveis.
Como A. H. Oliveira Marques ([9], vol II, p.131),

«Esta tentativa da Companhia de Jesus de dirigir a educação a todos os níveis não se processou, evidentemente, sem resistências várias. A Universidade de Coimbra contou-se entre os opositores. As demais ordens religiosas nomeadamente os Agostinhos e os Dominicanos, muito dados ao ensino e dispondo também de larga influência, reagiram com vigor, mas em vão (...) As Cortes de 1562 também protestaram contra o número e influência crescente dos jesuítas, elevando a voz contra a entrega do Col´gio das Artes à sua direcção.
Nada porém resultou, Jesuítas, Inquisição e Coroa estavam, ao tempo, fortemente unidos contra a heresia, o fermento cultural e todo e qualquer desvio da política do concílio de Trento. Através do País, grande número de professores sofreu perseguições de toda a ordem, muitos sendo encarcerados, condenados ou forçados a largar as suas cátedras.»

José Hermano Saraiva, na sua História Concisa de Portugal afirmou (p. 197):

«(...) os estudantes portugueses chegaram ao século XVIII a ter as sebentas que resumiam as ideias do princípio XVII. Por outro lado, o ensino que os jesuítas ministravam era um ensino empenhado. Era uma táctica de luta contra a heresia e contra o espírito da Reforma. Ora a Reforma nascera da liberdade mental, do direito que cada um se arrogara de pensar por si. Era isso que a pedagogia dos colégios queria evitar. O objectivo era enraizar dogmas em que sinceramente se acreditava, não o de provocar críticas, porque o resultado das críticas é sempre o fim dos dogmas. O ensino não foi, pois, um treino para pensar, mas um alicerce para crer. E deu resultado: porque os portugueses do século XVII creram muito e pensaram pouco.»

José d'Arriaga, na sua História da Revolução Portuguesa de 1820 (vol.I, p. 78), descreve a decadência nestes termos:

«A matemática, a astronomia, a física, a química, a geologia, a zoologia, finalmente, todas as ciências naturais foram soterradas na mais profunda ignorância pelos da seita negra, que as condenaram como inimigas da religião, e ciências perigosas. A verdadeira e sólida instrução foi posta de parte, com o pensamento reservado de se enfraquecerem as inteligências, e de aceitarem mais facilmente o jugo, tornando-se dóceis e submissas a tudo quanto lhes ensinaram.»


5 - Não se criou tradição de trabalho em Matemática

É claro que tal orientação do ensino prejudicou profundamente o estudo das ciências e, muito especialmente o estudo da Matemática. Alexandre Herculano, no trabalho Da Escola Politécnica e do Colégio dos Nobres (Opúsculos, vol. VIII, p. 57), depois de descrever o «carácter predominantemente da instrução nacional» no século XV, concluiu:

«Não era, pois, entre nós, a matemática mais que uma enxertia, uma excepção ou antes uma aberração das tendências literárias da país, devida a causas estranhas ao carácter da organização social desta.»

De facto, chegou-se ao século XX, sem uma tradição de trabalho em Matemática.
Logo em 1290, quando D. Dinis fundou, em Lisboa, a Universidade que, após várias mudanças de Lisboa para Coimbra e de Coimbra para Lisboa, acabou por se fixar em Coimbra, as Ciências Matemáticas não foram incluídas no conjunto das matérias a serem ensinadas na Universidade!

Garção Stockler concluiu, depois das investigações que fez, que até 1503, ainda não tinha havido, na Universidade Portuguesa, nenhuma cadeira de Matemática, o que ele explica pelo facto de o conhecimento desta ciência não ser considerado necessário aos candidatos ao estado eclesiástico ([20], p. 91 - 92),

«único fim que os prelados do Reino se haviam proposto, quando ofereceram a El Rei os rendimentos das igrejas, que efectivamente serviram de dotação à dita Universalidade

Só em 1518, mais de duzentos anos após a fundação da Universidade, é que foi criada (por D. Manuel I) uma cadeira, não ainda de Matemática, mas vizinha da Matemática - uma cadeira de Astronomia.

O destacado matemático português, Pedro Nunes, ensinou Matemática na Universidade de Coimbra desde 1544 até 1562, ano em que se jubilou. Depois de 1562, houve um longo período em que não se ensinou Matemática; só em 1592 é que foi nomeado novo lente de Matemática, André de Avelar, autor de um "Repertório dos Tempos", publicado pela primeira vez em 1585.

Mas, em 20 de Março de 1620, André de Avelar foi preso pela Inquisição. Solto poucos dias depois, foi novamente preso em 17 de Outubro de 1621. Barbaramente submetido a tormentos, quando tinha quase oitenta anos, acabou por ser condenado a prisão perpétua.
Foram também perseguidos e presos pela Inquisição, seus dois filhos, Luis e Pedro, e suas quatro filhas, Ana, Violante, Mariana e Tomázia ([2], pp 121 -36).
A Universidade ficou novamente sem um único professor de Matemática e, durante largos períodos, assim aconteceu.

Quando o Marquês de Pombal quis fundar o Colégio dos Nobres (posteriormente criado por carta régia de 7 de Março de 1761), viu-se em sérias dificuldades, porque os conhecimentos das ciências exactas, que havia em Portugal, eram tão poucos que, como informa Pedro Jos´da Cunha ([§], p.36), foi necessário

«recorrer a professores estrangeiros para o ensino das Matemáticas. Foram eles João Ângelo Brunelli, professor de Bolonha, Miguel Ciera, matemático piemontês, e Miguel Franzini, geómetra veneziano

Referindo-se a Brunelli e Ciera, Stockler ([20], p. 66), escreveu:

« (...) por fortuna havia pouco que tinha voltado da América meridional, da demarcação dos limites das nossas possessões naquela parte do Mundo: expedição para a qual haviam sido chamados no princípio do seu reinado [de D. José] por não haver astrónomos nacionais, a quem ela se confiasse.»

Em suma, não tínhamos matemáticos nem astrónomos.
A Astronomia foi estudada em Portugal, pelas suas aplicações à Navegação e a Matemática foi estudada, pelas suas aplicações à Astronomia. Com a decadência da Navegação decaiu a Astronomia e, com a decadência da Astronomia, decaiu a Matemática.
Já é tempo de os governos do País entenderem que a Matemática precisa de ser estudada, não s´pelas inúmeras aplicações às outras ciências e às técnicas, mas também, e sobretudo, pelos seus próprios méritos. Ora, depois de Pedro Nunes, houve apenas um curto período, em que se estudou Matemática pelos seus próprios méritos - o período da reforma pombalina da Universidade de Coimbra.

Mas a Inquisição mais uma vez interveio, perseguindo, prendendo e condenando o melhor matemático português do século XVIII, o matemático de quem muito havia a esperar: José Anastácio da Cunha.

Razão tinha Gomes Teixeira, quando, referindo-se à Inquisição, escreveu ([21], p.199):

«Esta instituição, com os seus fanatismos, com as suas denúncias,com os seus roubos,com as suas prisões, comas suas torturas, com os seus autos de fé, com as suas fogueiras, foi uma mistura de tragédia dolorosa e de baixa comédia que, durante cerca de duzentos anos, perturbou em Portugal todas as actividades e com elas o progresso geral do país

Foi durante quase trezentos anos que o nosso País sofreu a Inquisição - desde 1536 até 5 de Abril de 1821 - dia em que foi formalmente suprimida pelas Coretes Constituintes, nascidas da Revolução de 1820.

No auto de fé de 11 de Outubro de 1778, foi lida a sentença que o condenou a três anos de reclusão, seguídos de cinco anos de deportação em Évora. Posteriormente, foi-lhe perdoada parte da pena, mas nunca lhe foram restituídos os bens roubados pela Inquisição nem nunca lhe foi consentido voltar a ensinar na Universidade.

Revoltado contra esta condenação, Gomes Teixeira ([23], p. 124) escreveu:

«Esta condenação é mais um exemplo a ajuntar às manifestações de um estreito espírito sectarista, religioso ou político, reaccionário ou radical, que em todos os tempos e sob as formas mais variadas, têm atingido e desonrado a Humanidade.»

Depois da morte de D. José e do afastamento da cena política imposto a Pombal, voltou a acentur-se a decadência. As três invasões francesas que o nosso País sofreu no princípio do século XIX, a ocupação inglesa que se lhes seguiu, a sangrenta guerra civil entre absolutistas e liberais, governos ditatoriais como os dos Cabrais e outros governos autoritários prejudicaram de tal maneira o trabalho científico que, no começo do século XX, precisamente em 1900, Gomes Teixeira, em carta publicada na revista "L'Enseignement Mathématique" (vol. 2, pp 218-9) dizia:

«En Portugal, il ne se passe guère d'événements qui sent de nature à intérésser les mathématiciens des autre pays.»

Em 1923, em conferências nas Faculdades de Ciências de Paris e Toulouse, Gomes Teixeira declarou que o número de trabalhos publicados em Portugal, no século XIX, é muito considerável, mas alguns não têm interesse e outros são puramente didácticos. Finalmente, na "História das Matemáticas em Portugal", publicada já depois da sua morte (Fevereiro de 1933), Gomes Teixeira afirma que a maior parte dos trabalhos matemáticos publicados em Portugal, no século XIX e começos do século XX, tem apenas interesse didáctico e

«entre os que não estão neste caso, há muitos que são erróneos ou simples imitação de trabalhos estrangeiros»


6 - Uma lufada de ar fresco

Em 1936, António Monteiro regressou a Lisboa, vindo de Paris, Bolseiro da Junta Nacional de Educação e, depois, do Instituto de Alta Cultura (IAC), doutorou-se no Institut Henri Poincaré, com a tese "Sur l'additivité des noyaux de Fredholm" sob a direcção de Maurice Fréchet.

Com o regresso de Monteiro, uma nova época se inicia para a actividade matemática portuguesa. Segundo Hugo Ribeiro ([17], p. v),

«Com uma outra excepção, a matemática (pura) não era cultivada em Portugal e, assim, as escolas superiores limitavam-se a preparar professores das escolas secundárias ou técnicos e cientistas que porventura a utilizariam. Foi nesta atmosfera enormemente agravada pela ditadura e pelas guerras, civil em Espanha e na Europa, que Monteiro, não participante do ensino oficial, fez entrar uma lufada de ar frseco, impulsionando decididamente a Matemática neste país.»

Ainda em 1936, juntamente com outros companheiros recém doutorados, Manuel Valadares, Marques da Silva, António da Silveira, Peres de Carvalho e outros, criou o Núcleo de Matemática, Física e Química, que promoveu a realização de vários cursos e conferências, no âmbito destas ciências.

Foi precisamente o Núcleo que, em 1937, convidou Ruy Luís Gomes a fazer, no Instituto Superior Técnico, um conjunto de conferências sobre Teoria da Relatividade, que foram publicadas na colecção do Núcleo, em 1938, sob o título Teoria da Relatividade Restrita".

O contacto então estabelecido com Monteiro constituiu um grande incentivo às actividades matemáticas que Ruy Luís Gomes iria desenvolver no Porto.


Em 1937, com a colaboração de Hugo Ribeiro, Silva Paulo, Zaluar Nunes e Ruy Lu´s Gomes, Monteiro fundou a ""Portugaliae Mathematica", revista dedicada exclusivamente à publicação de originais de Matemática e, com a colaboração de Bento Caraça, Silva Paulo, Hugo Ribeiro e Zaluar Nunes, em 1940 fundou a "Gazeta de Matemática", jornal dos concorrentes ao exame de aptidão e dos estudantes de Matemática das escolas superiores.

Em 1938, fundou o Seminário Matemático de Lisboa que, em 1939, tomou o nome de Seminário de Análise Geral, com o objectivo de, segundo as suas própri as palavras,

«iniciar um grupo de jovens no estudo das matemáticas modernas."

Entre os participantes deste Seminário, destacaram-se Hugo Ribeiro e José Sebastião e Silva (que mais tarde, ele considerou como o maior matemático português) ([6], p. 30).

Como resultado de uma proposta de Bento Caraça, Mira Fernandes e Beirão da Veiga, o Conselho Escolar do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras criou, em 1938, o Centro de Estudos Matemáticos Aplicados à Economia. Neste Centro, Zaluar Nunes regeu, em 1938-39, um curso de Cálculo das Probabilidades e Estatística Matemática; em 1939-40, Rinaldo Campião, Castanheira Nunes e outros realizaram colóquios sobre seguros e, em 1941 - 42, Sá da Costa iniciou um curso de Introdução à Economia Matemática Clássica, etc..

Em Fevereiro de 1940, Monteiro conseguiu que o IAC fundasse o Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa. Pedro José da Cunha presidiu às duas primeiras conferências do Centro; de Hugo Ribeiro, sobre "Objectivo da Topologia Geral" e de Monteiro, sobre "A Importância da Análise Geral". Conferências de Álgebra, Teoria dos Números, Topologia, Teoria da Medida, etc., foram feitas por Remy Freire, Morbey Rodrigues, Sebastião e Silva, Sá da Costa, Silva Paulo, Ramos de Castro, Virgílio Barroso, Ribeiro de Albuquerque, Mário de Alenquer, Veiga de Oliveira, Hugo Ribeiro, António Monteiro, Zaluar Nunes e outros.

No período 1940 -41, onze trabalhos de investigação, provenientes do Seminário de Análise Geral, foram publicados na Portugaliae Matehematica .

Em 12 de Dezembro de 1940, Monteiro e seus colaboradores fundavam a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), que logo à partida, contava com mais de 100 sócios; em Julho de 1947, tinha 331.

Entretanto, a Secção de matemática da Faculdade de Ciências do Porto, por iniciativa de Ruy Luís Gomes, promovia a realização de cursos livres e conferências, nomeadamente, por Almeida e Costa, António Monteiro, Bento Caraça, Manuel Valadares, Marques da Silva,Manuel Miranda, Neves real, Sarmento Beires e outros.

Sobre estes cursos e conferências, escreveu Ruy Luís Gomes ([7], pp.13-14):

«Por um lado, no plano científico, temos a intenção de facilitar aos estudiosos as técnicas e as vias de acesso aos problemas de maior actualidade, da Matemática e das suas aplicações. Por outro, desejamos integrar os problemas da Matemática np movimento geral da Ciência.
(...) Finalmente, num plano ético, desejamos criar um ambiente de trabalho, um "clima" e um estímulo como resultado da cooperação de todos numa tarefa que transcende o interesse imediato de cada um e traduz uma consciência colectiva: a de que pertencemos a uma Universidade.»

Comentando estas palavras, Monteiro escreveu ([11], p. 17):

«Palavras necessárias, num meio como o nosso, em que tantas vezes o interesse imediato de cada um se sobrepõe injustificadamente à realização das tarefas culturais mais urgentes e necessárias; num meio em que a indiferença (e, por vezes, a hostilidade aberta ou mal dissimulada) perante o trabalho de investigação científica constitui um método de acção retardadora do progresso cultural do país.»

Por iniciativa de Ruy Luís Gomes (exposição dirigida, em 11 de Outubro de 1941, ao Presidente do IAC, Porf. Celestino da Costa), foi criado em Fevereiro de 1942, o Centro de Estudos Matemáticos do Porto.

Do primeiro plano de trabalhos do Centro enviado ao IAC, constam os planos individuais de Neves Real, Manuel de Barros, Manuel Miranda, Almeida e Costa e Ruy Luís Gomes, contendo cada um o programa de um curso e o enunciado de um ou mais problemas de investigação. Consta também o programa de um curso a ser ministrado por Monteiro, "Funções de conjuntos e seus invariantes".

O plano de trabalho do Centro, no ano seguinte, inclui o plano de um novo trabalhador do Centro, Alfredo Pereira Gomes, que se propôs, além do mais, a redigir um curso a ser ministrado por Monteiro, "Introdução ao Estudo da Noção de Função Contínua". O curso foi publicado em 1944, como nº 8 da Colecção de Publicações do Centro. Foi amplamente utilizado (pelo menos, no Porto) por estudantes e licenciados, na década de 40, interessados em melhorar a sua preparação matemática.

Anexo ao Centro do Porto, criou-se o Seminário de Física Teórica.

Criou-se ainda, em Lisboa, uma Tipografia Matemática para compor a Portugaliae Mathematica, a Gazeta Matemática e outras publicações científicas, nomeadamente, a PortugaliaePhysica e a Gazeta de Física, que nasceram por influência das correspondentes revistas de Matemática.

Em 4 de Outubro de 1943, foi fundada a Junta de Investigação Matemática (JIM) por Mira Fernandes, António Monteiro e Ruy Luís Gomes, com os objectivos de promover o desenvolvimento da investigação científica, realizar trabalhos de investigação necessários à economia nacional e ao desenvolvimento das outras ciências, estabelecer relações com o movimento matemático dos países ibero-americanos e despertar o entusiasmo da juventude pela investigação matemática e a fé na sua capacidade criadora.

Apesar da hostilidade da ditadura salazarista, a luta contra o isolamento, a luta pela investigação e divulgação matemática prosseguia alegremente em todas as frentes!

Segundo António Monteiro ([12], p. 11),

«Quando os matemáticos portugueses, sem serem solicitados, sem serem forçados, mas animados do grande desejo de servir a Nação, fundaram a Junta de Investigação Matemática, disseram ao país: Para cunprir os nossos deveres, estamos presentes.».

No Porto, aos sábados à tarde, como resultado da colaboração da JIM e do Centro, passaram a realizar-se Colóquios de Análise Geral, com participação estudantil. Desses colóquios nasceu nova colecção de publicações, "Cadernos de Análise Geral" (os "Cadernos JIM").

A Jim promoveu a realização de palestras lidas ao microfone de um posto emissor Particular do Porto, Rádio Clube Lusitânia, cujo proprietário, Júlio Nogueira, colaborou, enquanto pôde, com a JIM. Essas palestras divulgavam a importância da investigação científica nos mais diversos campos e foram seus autores Ruy Luís Gomes, António Monteiro, branquinho do Oliveira, Fernando Pinto Loureiro, José Antunes Serra, António Júdice, Armando Castro, Carlos Teixeira, Flávio Martins e Corino de Andrade. As palestras foram publicadas pela JIM.

Como resultado da colaboração da SPM com a JIM, foram realizadas em Lisboa conferências por Ruy Çuís Gomes, Almeida Costa, Neves Real, Pereira Gomes e o então estudante Andrade Guimarães.

Como era natural, as instituições criadas contribuiram para melhorar a participação portuguesa em Congressos de Matemática.


7 - Investida salazarista contra a Universidade

A ditadura não assistia de braços cruzados à manifestação das actividades científicas e, especialmente, das actividades matemáticas.

Já tinha conseguido impedir que notável físico Guido Beck continuasse a orientar o Seminário de Física Teórica, anexo ao Centro de Matemática do Porto. a ditadura forçou Guido Beck a sair do Porto, fixando-lhe residência nas Caldas da Rainha, em 1943. Passado algum tempo, Guido beck conseguiu sair para a Argentina e foi trabalhar no Observatório de Córdoba e, posteriormente, foi para o Brasil para o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Correspondendo ao interesse manifestado pela SPM, por António Monteiro e colaboradores, para se formarem Clubes de Matemática, estudantes da faculdade de Letras de Lisboa formaram um Clube de Matemática. Outros Clubes se lhe seguiram: no Instituto Superior de Agronomia, no Instituto Superior Técnico, que começaram imediatamente a trabalhar, organizando Colóquios e Conferências de Matemática.

Quando surgiu o Clube de Matemática da Faculdade de Ciências do Porto, a ditadura suprimiu todos os clubes existentes e a formação de novos clubes.

Os sinais de hostilidade governamental fora aí estavam crescendo.

Os "bons exemplos" do nazismo e do fascismo italiano aí estavam para serem seguídos ...

A Alemanha nazi tinha feito uma "limpeza exemplar" nas Universidades e em Outubro de 1939, 22 universidades alemãs estavam encerradas. A Itália fascista expulsou das Universidades professores prestigiados, entre os quais os matemáticos Guido Ascoli, Federico Enriques, Gino Fano, Guido Fubini, Arturo Horn, Beppo Levi, Levi-Civita, Arturo Maroni, Benjamino Segre, Alessandro Terracini ([13], p. 106)

A ditadura salazarista nos anos !945 a 1947, por processos diversos, afastou do ensino universitário ou impediu que nele entrassem: Bento Caraça, Azevedo Gomes, ruy Luís Gomes, Pulido Valente, Fernando Fonseca, Ferreira de Macedo, Peres de Carvalho, Dias Amado, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Adelino da Costa, Cascão de Anciães, Mário Silva, Torre de Assunção, Flávio Resende, Zaluar Nunes, Remy Freire, Crabée Rocha, Manuel Valadares, Marques da Silva, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues, Pereira Gomes, Sá da Costa, Virgílio Barroso, Jorge Delgado, Hugo Ribeiro, António Monteiro, Soares David, António Santos Soares e outros.

Nos outros graus de ensino, houve também professores afastados do ensino e licenciados impedidos de se profissionalizarem, por simples informação da PIDE.

as actividades da SPM não foram expressamente proibidas, mas foram proibidas em todas as dependências do chamado Ministério da Educação Nacional. Quando o matemático espanhol German Ancochea esteve em Lisboa, para fazer uma conferência sobre Geometria Algébrica, o único lugar que conseguimos para a realização da conferência foi o restaurante onde convidámos para almoçar, o English Bar.

O Seminário de Matemática que era realizado no Laboratório de Física da Faculdade de Ciências de Lisboa, teve de funcionar numa dependência da casa de Hugo Ribeiro, no Murtal, que passámos a chamar Universidade do Murtal.

No Porto, o Seminário de Matemática foi transferido para a casa de Neves Real, na Rua do Almada, que passou a ser conhecida como a Universidade da Rua do Almada.

António Monteiro, Hugo Ribeiro, Ruy Luís Gomes, Pereira Gomes, Zaluar Nunes, José Morgado, Remy Freire e outros, após várias perseguições pela PIDE, viram-se obrigados a exilar-se, para poderem continuar a exercer a profissão. Jorge Delgado, Soares David, Sá da Costa, Morbey Rodrigues, Marques da Silva, Marques da Silva, e outros viram-se obrigados a mudar de profissão.

Laureano Barros, Ferreira de Macedo e outros, impedidos de continuarem como docentes universitários, passaram a ensinar estudantes universitários, como explicadores.

No entanto, a Resistência Matemática não foi vencida!

A Portugaliae Mathematica, a Gazeta de Matemática, a Tipografia Matemática, graças à dedicação de Zaluar Nunes e, após o seu falecimento, graças a Gaspar Teixeira, resistiram ao vandalismo governamental, até depois da Revolução dos Cravos.

A Portugaliae Mathematica, actualmente dirigida por Pereira Gomes e uma boa equipa, melhorou consideravelmente.

A actividade matemática no país é agora muito maior que no tempo da ditadura.

Em Lisboa, a actividade matemática, depois da investida de 1945-47, continuou em de Sebastião e Silva e, no Porto, graças aos esforços de Sarmento Beires, Arala Chaves, Coimbra de Matos e nos últimos anos, graças aos esforços de Falcão Moreira e seus companheiros na Direcção do Centro, recuperou-se o Centro de Matemática.

Quaisquer que sejam as dificuldades a vencer, a Resistência Matemática não desanimará.

A lição de António Monteiro, Ruy Luís Gomes, Hugo Ribeiro e Sebastião e Silva não foi esquecida.


BIBLIOGRAFIA

1. ARRIAGA, JOSÉ D': "História da Revolução Portuguesa de 1820", Livraria Portuense, Porto, 1886.

2. BAIÃO, ANTÓNIO: "Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa", 3ª ed.., Seara Nova, Lisboa, 1972.

3. CORTESÃO, JAIME: "Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid I", Livros Horizonte, Lisboa, 1984.

4. CUNHA, PEDRO JOSÉ da: "Bosquejo histórico das matemáticas em Portugal", Exposição Portuguesa em Sevilha, Lisboa, 1929.

5. GODINHO, VITORINO MAGALHÃES: "Do ofício e da cidadania. Combates por uma civilização da dignidade", Edições Távola Redonda, Lisboa 1989.

6. GOMES, RUY LUÍS: "Tentativas feitas nos anos 40 para criar no Porto uma escola de Matemática" Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, 6 (1938) pp. 29-48.

7. GOMES, RUY LUÍS: "Sobre o objectivo do curso promovido pela Secção de Matemática da Faculdade de Ciências do Porto", Gazeta de Matemática, 9 (1942) pp. 13-14

8. HERCULANO, ALEXANDRE: "Da Escola Politécnica e do Colégio dos Nobres", incluído no tomo VII de "Opúsculos", pp. 27-94, 3ª ed. Livraria Bertrand, Lisboa.

9. MARQUES, A. H. OLIVEIRA: "História de Portugal", Palas Editores, Lisboa

10. MARTINS, J. P. OLIVEIRA: "História de Portugal" 11ª ed. Parceria António Maria Pereira, Lisboa 1927.

11. MONTEIRO, ANTÓNIO: "Centro de Estudos Matemáticos do Porto", Gazeta de Matemática, 10 (1942), pp. 27

12. MONTEIRO, ANTÓNIO: "Os Objectivos da Junta de Investigação Matemática", 21, pp. 10-11

13. MORGADO, JOSÉ: "O Professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português", Anais da Faculdade de Ciências do Porto, 67 (1986), pp. 97-151.

14. MORGADO, JOSÉ: "Para a História da Sociedade Portuguesa de Matemática", 1990, Conferência feita no cinquentenário da SPM, em Lisboa (não publicado)

15. QUENTAL, ANTERO DE: "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares" texto incluído em "Prosas Sócio-Políticas", pp. 255-296, publicadas e apresentadas por Joel Serrão, Colecção Pensamento Português, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1982.

16. QUENTAL, ANTERO DE, e outros: "Conferências Democráticas Estabelecidas na Sala do Casino", texto incluído em "Prosas Sócio- Políticas", pp. 253-254, publicadas e apresentadas por Joel Serrão, Colecção Pensamento Português, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1982.

17. RIBEIRO, HUGO: "Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942", Portugaliae Mathematica, 39 (1980) pp. V-VII.

18. SÁ, VICTOR DE: "Antero de Quental", Colecção Limiar/Ensaio, Editora Limiar, Porto, 1982.

19. SARAIVA, JOSÉ HERMANO: "História Concisa de Portugal"Colecção Saber, Publicações Europa-América, Mira-Sintra, Mem Martins, 1978.

20. STOCKLER FRANCISCO DE BORJA GARÇÃO: "Ensaio Histórico sobre a Origem e Progresso das Matemáticas em Portugal", Paris, 1819.

21. TEIXEIRA, FRANCISCO GOMES: "História das Matemáticas em Portugal", Biblioteca de Altos Estudos, Lisboa, 1934.

22. TEIXEIRA, FRANCISCO GOMES: Uma carta publicada na revista "L'Enseignement Mathématique", 2 (1900), pp. 218-19.


23. TEIXEIRA, FRANCISCO GOMES: "Elogio Histórico do Doutor José Anastácio da Cunha", incluído em "Panegíricos e Conferências", pp. 121-153, Academia das Ciências de Lisboa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1925.


José Morgado

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Intervenção na Campanha Eleitoral para a Assembleia da República em 1976

Companheiros

Amigos

Há um ano estivemos aqui em Rio Tinto para solicitarmos o vosso apoio à Eng.ª Virgínia Moura e seus companheiros, para levarmos à Assembleia Constituinte deputados capazes de elaborar uma Constituição que consagrou a vitória do Povo sobre o fascismo, uma Constituição que incentivasse novos passos rumo ao socialismo, uma Constituição que proclamasse e defendesse o direito do Povo traçar o seu destino, uma Constituição, enfim, que fosse digna do Povo português.
A Constituição foi finalmente elaborada, foi publicada e entra em vigor precisamente no próximo domingo, 25 de Abril de 1976.
Por que será que, nesta altura, dos 14 partidos que se apresentam às eleições, uns apoiam, e outros não, a Constituição da República?
Por que será que alguns desses 14 partidos evitam até falar na Constituição?
Por que será que, entre os partidos que estiveram representados na Constituinte, houve quem votasse contra?
Por que será que alguns elementos de partidos que aprovaram a Constituição, se manifestam contra disposições essenciais da Lei Fundamental do País?

Para entender o que se passa, para nos esclarecermos sobre o que está em jogo nesta eleição, para nos decidirmos sobre o que fazer, interessa naturalmente procurar responder a perguntas como estas e só estamos em condições de responder conscientemente a tais perguntas, tomando contacto com aspectos fundamentais da nossa Constituição.
A nossa Constituição, Amigos, apesar de algumas limitações, é uma Constituição democrática que aponta para o socialismo.
Honra seja, pois, os nossos deputados que souberam, vencendo inúmeras dificuldades, constituir um poderoso instrumento de luta pela democracia e pelo socialismo.
Assim, logo no Artigo 16, se diz que «os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem
Ora, Amigos, talvez não se lembrem ou não saibam o que lhes vou contar: uma vez, na Avenida dos Aliados, houve uma manifestação, aí por 1950, desfeita à cacetada pelas várias polícias do regime fascista de Salazar e, em consequência disso, teve de ir para o Hospital, banhado em sangue, o nosso querido Companheiro, Arquitecto Lobão Vital.
Foi sobre ele, mais de que qualquer outro, que os fascistas mais descarregaram o seu ódio; e sabem porquê?
É que esse nosso Amigo tinha ajustado contra o peito, o livro intitulado "Declaração Universal dos Direitos do Homem".
Actualmente, a Constituição da República consagra essa Declaração no seu texto.
A Constitução dedica vários artigos aos direitos dos trabalhadores. Por exemplo, no seu artigo 53, declara-se que todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, nacionalidade, religião ou ideologia têm direito à retribuição do trabalho, à organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, à prestação do trabalho em condições de higiene e segurança, ao repouso e aos lazereres, ao descanso semanal e a férias pagas.
E atribui, no artigo 54, ao estado a incumbência de assegurar as condições de trabalho, retribuição e repouso a que os trabalhadores têm direito.
Pela primeira vez, os trabalhadores são objecto de preocupações especiais da Lei Fundamental do País.
No antigo regime, lembram-se como eram tratadas as comissões de trabalhadores? Quantas vezes foram perseguidas, espancadas, arrastadas para as cadeias e Tribunais Plenários!
Na nova Constituição, artigo 55, determina-se: «É direito dos trabalhadores criarem comissões de trabalhadores para a defesa dos seus interesses e intervenção democrática na vida da empresa, visando o reforço da unidade das classes trabalhadoras e a sua mobilização para o processo revolucionário de construção do poder democrático dos trabalhadores»
Os direitos dessas comissões são consagrados no artigo 56:

« a) Receber todas as informações necessárias ao exercício da sua actividade.
b) Exercer o controlo de gestão nas empresas.
c) Intervir na organização das unidades produtivas.
d) Participar na elaboração da legislação do trabalho e dos planos económico - sociais que contemplam o respectivo sector.»

Compreendem, agora, Amigos, por que os partidos que defendem o grande capital estão contra a Constituição?
No artigo 57, que trata da liberdade sindical, preconiza-se que «as associações sindicais devem reger-se pelos princípios da organização e gestão democráticas, baseadas em eleições periódicas e por escrutínio secreto dos órgãos dirigentes, sem sujeição a qualquer autorização ou homologação e assente na participação activa dos trabalhadores em todas os aspectos da actividade sindical

E mais adiante: «as associações sindicais são independentes do patronato, do Estado, das confissões religiosas, dos partidos e outras associações políticas, devendo a lei estabelecer garantias adequadas dessa independência, fundamento da unidade das classes trabalhadoras.»
Quer dizer, os sindicatos pertencem a quem de direito, os sindicatos pertencem aos trabalhadores.
Estamos muito longe, Amigos, daquele tempo em que as direcções sindicais precisavam de ser homologadas pelo governo dos grandes patrões.
E também é importante, Amigos, notar que a Constituição defende a unidade das classes trabalhadores e a sua independência face aos partidos, quer dizer, a Constituição não facilita as aspirações de alguns partidos virem a ter os seus sindicatozitos para manipular.
Além disso, nos artigos 59 e 60, a Constituição garante o direito à greve e pribe o lock - out.
Por isso, é que os partidos do grande patronato não gostam ...
Os direitos da Juventude também não são ignorados. assim, no artigo 70, determina-se que os jovens, sobretudo os jovens trabalhadores, gozam de protecção especial para a efectivação dos seus direitos económicos, sociais e culturais, obrigando-se o Estado (artigo 73 e 74) a democratizar a educação e a cultura, a assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito e a estabelecer progresssivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino e estimular a formação de quadros científicos e técnicos originários das classes trabalhadores.
É claro agora, Amigos, porque é que os da alta burguesia e os restos da chamada nobreza convencidos de que o sangue não é vermelho, nem podem sequer ouvir falar na Constituição da República. É que o estímulo à formação de quadros científicos e técnicos originários das classes trabalhadoras é realmente uma disposição autenticamente revolucionária que os representantes dos capitalistas não podem aceitar.
Mas terão que aceitar!
A coisa não melhora para os reaccionários, quando a Constituição se ocupa do fundamento da organização económico - social.
Assim, no artigo 80, proclama-se:

«A organização económico - social da República Portuguesa assenta no desenvolvimento das relações de produção socialista»

Que saudades não terão os reaccionários do tempo em que tudo isto era linguagem subversiva!
Mas há mais: os meios que a Constituição preconiza para o desenvolvimento das relações de produção socialista, são, nem mais nem menos, que

«apropriação colectiva dos principais meios de produção e solos, bem como os recursos naturais, eo exercício do poder democrático das classes trabalhadoras.»

E na sequência disto, o artigo 83 garante:

«Todas as nacionalizações efectuadas depois de 25 de Abril de 1974 são conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras».

Isto significa, Amigos, que os que andam por aí a pregar contra as nacionalizações já feitad, estão contra a Constituição, estão ao serviço dos monopólios contra o Povo e contra a Lei Fundamental do País. Não podem, em hipótese alguma, receber o voto dos democratas conscientes.
Também não estão mais felizes os defensores dos grandes operários, uma vez que no artigo 96, a Constituição determina que

«A reforma agrária é um dos instrumentos fundamentais para a construção da sociedade socialista»

e no artigo 97 diz que a transferência da posse da terra para aqueles que a trabalham será obtida através da expropriação dos latifúndios e das grandes explorações capitalistas, a cooperativa de trabalhadores rurais ou de pequenos agricultores ou a outras unidades de exploração colectiva por trabalhadores.
E tudo isto, ao mesmo tempo que, no artigo 99, salvaguarda os direitos dos pequenos e médios agricultores e os interesses dos emigrantes.
Por isso, é que os monopolistas e latifundiários e os seus porta-vozes - os representantes da direita - foram e são contrários à Constituição.
Por isso, se manifestam agora contra ela, aqueles que na Assembleia não puderam deixar de a aprovar, mas aprovaram-na talvez fazendo figas e de pé no ar ...
Uns e outros procuram confundir os pequenos e médios agricultores (que eles sempre exploraram), procuram induzi-los a tomar posição contra aquilo que os defende - a Constitução da República Portuguesa.
Os monopolistas e latifundiários também já não podem, segundo a Constituição, contar com a polícia, como nos tempos de Salazar e Caetano, porque, segundo a Constituição, artigo 272, «a Polícia tem por função defender a legalidade democrática e os direitos do cidadão.»

Bem, meus Amigos, parece que não será preciso dizer mais nada para concluirmos que a Constituição não só consagra conquistas populares como abre caminho a novas conquistas rumo ao socialismo.
Os trabalhadores e as suas comissões, as associações populares ganharam direitos de verdade e figuram repetidas vezes nas disposições da Lei Fundamental.
Os nossos deputados, os deputados dos grandes partidos operários, comunistas, socialistas e independentes conseguiram dotar o País dev uma Constituição democrática.
Merecem todos eles o nosso aplauso.
No entanto, a Constitução não se aplica por si mesma, não se defende a si própria.
Precisamos nós de a defender!
E não podemos confiar que vão defende-la os representantes dos monopolistas e latifundiários, aqueles que votaram contra.
Não podemos confiar que vão defende-la aqueles que já proclamam a necessidade de a alterar, que já se manifestam contra as nacionalizações, contra o controlo operário, contra a reforma agrária.

Não, amigos!

A Constituição, nas suas disposições mais progressistas, foi resultado da acção convergente dos deputados comunistas e socialistas.
É aos deputados comunistas e socialistas e aos deputados independentes que estão ao seu lado, que podemos confiar a sua defesa, do assalto que os fascistas, os capitalistas e seus aliadosestão preparando, pois que outra coisa poderão eles fazer senão conspirar contra a Constituição que, no seu artigo 46, declara absolutamente que não são consentidas organizações que perfilhem a ideologia fascista?
Por isso, é correcta a política que defende uma maioria de esquerda para governar o País.
Por isso, todos nós, partidários ou independentes, devemos votar na esquerda!
Mas atenção, Amigos, não vamos perder nossos votos. Vamos votar em quem dá garantias de consolidar as conquistas da Revolução e partir para novas conquistas. Não vamos votar no partido de quem já "decretou" que " a Revolução acabou", de quem decretou que "o PCP está cada vez mais pequeno", de quem "decretou que quer governar sozinho".
Vamos votar exactamente no grande partido da Resistência antifascista.

Vamos votar no PCP.

José Morgado

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Apresentação do livro intitulado "Nómadas e Sedentários na Ásia Central" de Miguel Urbano Rodrigues

Na Introdução ao seu livro Nómadas e Sendentários na Ásia Central, Miguel Urbano Rodrigues começa por nos dizer que possivelmente a ideia deste seu trabalho terá nascido em 1986, nas ruínas de uma antiquíssima cidade do Norte do Afeganistão.
A sua curiosidade natural e o seu espírito de observação levaram-no a formular várias perguntas às pessoas com quem foi tendo contacto, mas algumas dessas indagações não obtiveram resposta, porque as pessoas que interrogou não tinham tido interesse em se informar. Por exemplo, não conseguiu saber o nome da tal cidade arruinada, nem a época em que tinha sido construída.
Em face desta situação, Miguel Urbano, fez as seguintes considerações:

«Essas indagações, repetidas e ampliadas, estiveram na origem do interesse crescente que o cenário geográfico e histórico do Afeganistão me inspirou, quando a guerra ali me atraiu pela primeira vez em 1980. Para tentar compreender um pouco o presente, procurei subir pelo passado até onde me era possível. (...)
O interesse diversificou-se; o cenário ganhou outra dimensão. A Ásia Central passou a ser quase obsessão.
(...)
O fascínio por culturas justapostas, algumas antagónicas, foi germinando até se transformar em projecto, o desejo vago de passar, a reflexão escrita, a minha meditação descontínua sobre o movimento dos povos e o encontro e choque de civilizações, numa área de contornos fluidos, que tem por núcleo a Ásia Central, mas é mais ampla que ela.»

E mais adiante, miguel Urbano declara:

«Se este livro for bem recebido pelos jovens que, nas Universidades portuguesas se entregam com amor aos estudos históricos, se ele conseguir despertar-lhes o interesse pelo papel decisivo que a Ásia Central desempenhou durante dois milénios no processo de interacção de civilizações e, portanto, da evolução da Humanidade, sentirei que valeu a pena o esforço que me exigiu a sua elaboração.»

Estou inteiramente convencido de que esse esforço, que não foi pequeno, não será considerado um esforço perdido. Muito pelo contrário; trata-se de um esforço que despertará a curiosidade dos seus leitores atentos, trata-se de um esforço que motivará o aparecimento de novos trabalhos sobre o nascimento e evolução de civilizações de povos asiáticos ou até não asiáticos.
De facto, o cuidado que Miguel Urbano teve em não dissociar o estudo da Geografia do estudo da História dos povos asiáticos, o cuidado em incluir na Introdução o significado actual de cerca de 100 palavras ou expressões usadas em uma ou mais regiões da Ásia Central, mas não usadas ou muitíssimo pouco usadas em Portugal e noutros países de língua portuguesa, o cuidado que teve, ao longo das cerca de 40 páginas da Introdução, em formular perguntas ao leitor (em, de certo mod, conversar com o leitor), pondo-o a par de algumas dificuldades e, inclusivamente, de algumas questões a que o próprio Miguel Urbano declarou ainda não saber responder (mas não declarou que desistia de vir a saber), enfim, a grande seriedade de Miguel Urbano, tudo isto poderá motivar a elaboração de outros trabalhos sobre temas análogos ao tema do presente livro - a aventursa do homem na Ásia Central.
E uma tal motivação é tanto mais necessária quanto é certo qu, conforme pode ler-se na História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes (6ª ed., p. 328),

«está por estudar, sob o ponto de vista literário, como sob o histórico, a colecção de 61 volumes de documentos intitulada "Jesuítas na Ásia", existente [então] na Bibliuoteca da Ajuda, em cópias setecentistas de que recentemente se descobriram os originais em Madrid (vide Brotéria, vol. LXXXII, 1961, Janeiro)»

Quanto ao facto de Miguel Urbano fazer perguntas, a algumas das quais ainda não saber responder (apenas podendo talvez formular algumas hipóteses),convém lembrar uma passagem do livro de Lucien Fèbvre, intitulado Combats pour L'Histoire (Combates pela História, traduzido por Leonor Martinho Simões e Gisela Moniz, 3ª ed., Lisboa, 1989, Editorial Presença, Lda). Este livro contém os textos de vários artigos e conferências do seu Autor).
A conferência a que nos vamos referir intitula-se Viver a História e foi dirigida aos alunos da l' École Normale Supérieure, no princípio do ano lectivo de 1941.
Entre outras coisas, diz o seguinte (pp. 32 - 33):

«Se o historiador não põe a si próprio problemas ou, tendo-os posto, não formula hipóteses para os resolver - no que respeita a ofício, a técnica, a esforço científico, sou levado a dizer que está um tanto atrasado em relação ao último dos nossos camponeses, porque esses sabem que não convém lançar seus animais, em desordem, no primeiro campo que apareça, para eles pastarem ao acaso: mantêm-nos no cercado, prendem-nos à estaca, fazem-nos parsar mais aqui que ali. E sabem porquê?»

Há um certo exagero nesta afirmação de Lucien Febvre ...

*
A propósito da ligação entre entre História e Geografia, pode ler-se, na Introdução do presente livro de Miguel Urbano, o seguinte (pp 11 - 12):

«Historiadores portugueses do século XVI deram uma contribuição de grande valor para um melhor conhecimento, na Europa, de aspectos da Ásiareal, pondo fim a mitos que a desfiguravam. Benedicto de Goes, um jesuíta português, percorreu a Rota da Seda, e foi talvez o primeiro europeu a desfazer em 1603 confusões geográficas e históricas que nasciam da multiplicidade de nomes utilizadas para designar a China.
Nos últimos séculos a historiografia portuguesa fechou-se, porém, sobre a Índia, no tocante à Ásia, e mais concretamente sobre uma parcela da Índia. Da importância e significado do conjunto da obra produzida pelos estudiosos, da presença portuguesa no subcontinente, faz prova a opinião que, sobre esta,expressam alguns dos mais eminentes historiadores indianos contemporâneo»

Em vez de Benedicto de Goes, não será Bento de Goes?
Faço esta pergunta, porque é como Bento de Goes, e não como Benedicto de Goes, que um jesuíta português vem mencionado na Grande Eciclopédia Delta Larousse, na Enciclopédia Luso - Brasileira de Cultura, na Nova Enciclopédia Larousse e no vol. II da História de Portugal de A. H. de Oliveira Marques.
Não sei se terá acontecido que, atendendo à proximidade de significados das palavras Bento e Benectido, ambos os nomes, Bento de Goes e Benectido de Goes, tenham sido usados por uma mesma pessoa!...
A propósito de um melhor conhecimento, na Europa, de aspectos da Ásia real , talvez fosse interessante fazer uma alusão, naturalmente breve, ao célebre livro Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. E digo alusão, naturalmente breve, porque Fernão Mendes Pinto não é considerado um historiador.
No entanto,
na Nova Enciclopédia Larousse, diz-se que

«O testemunho documental da Peregrinação, para além do seu valor artístico, é valiosíssima, pelos relatos não só dos costumes chineses, japoneses e de outros povos asiáticos, mas também pelo retrato que faz, nem sempre abonatório, da presença portuguesa no Oriente do século XVI.»

Na Grande Enciclopédia Delta Larousse, pode ler-se que

«Fernão Mendes Pinto incorre por vezes em exagerações fantasiosas que, por serem tais e tantas, deram origem ao conhecido jogo de palavras: "Fernão! Mentes? Minto." Todavia, como observam vários historiadores modernos, em todas as fantasias que nos relata há muito de verdadeiro, e sua obra constitui um dos mais ricos repositórios de informações sobre a época e os costumes antigos das regiões que percorreu.
(...)
A Peregrinação foi traduzida, logo depois da sua publicação, para a maioria das línguas cultas do mundo, fazendo de Fernão Mentes Pinto um dos escritores portugueses mais divulgados internacionalmente.»

Na pág. 26 do vol. II da História de Portugal , de Oliveira Marques, diz-se que:

«O maior de todos os viajantes portugueses da primeira metade do século XVI foi, sem dúvida, Fernão Mendes Pinto, aventureiro em busca de fortuna, que visitou o sudoeste asiático, a China, o Japão, em longos percursos que lhe ocuparam dezassete anos de vida (1537 - 1554). A sua peregrinação, só publicada em 1614, combina uma boa dose de imaginação e de fantasia com grande parte de informes verídicos e palpitantes de vida. Com justiça tem sido apodado de Marco Polo portugues.»

Na História de Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes (pp 319 - 320; da 6ª edição) pode ler-se:

«O mais interessante livro de viagem do século XVI português e um dos mais interessantes da literatura mundial é a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (~1510 - 1583).
(...)
Podem distinguir-se na Peregrinação capítulos que se inspiram evidentemente na experiência directa e capítulos que são reconstrução a partir de fontes literárias e outras igualmente indirectas. Está no primeiro caso a descrição do Japão, ou antes, dos meios aristocráticos japoneses, de que F.M.P. apreendeu com finura feições típicas, como o espírito guerreiro, a cortesia fidalga, a fúria da honra, e outros - antecipando-se aos observadores exotistas do século XIX. Está no segundo caso a descrição da China, prodigiosa civilização que o espanta e cuja superioridade ele procura explicar pela história, leis, normas morais e preceitos religiosos. Esta descrição da China é na realidade o esboço de uma utopia, e antecipa-se à crítica social mediante contrastes de civilizações, tão praticada no século XVIII.
O exotismo de F. M. Pinto resulta do seu interesse incessante pelas formas das civilizações que percorreu. Mas, ao contrário do que sucede com a maior parte da literatura exótica do séc. XIX, não se trata de um simples desfrutador de curiosidade. Não tem o preconceito de superioridade da sua civilização ou de sua raça, e por isso assume facilmente perante os orientais uma atitude admirativa e humilde que o leva, por exemplo, a desejar que as leis de China sejam imitadas em Portugal. A isenção de preconceitos raciais, nacionais ou religiosos, juntamente com a atitude crítica que nunca abandona, revelam-se ao pôr na boca das suas personagens orientais as opiniões e comentários mais depreciativos acerca dos Europeus. Para eles, estes homens brancos e barbados não passam de vagabundos miseráveis ou de salteadores bárbaros, sem educação, sem humanidade sem verdadeira religião.»

*
A propósito da historiografia nacional, recordemos que, para Oliveira Martins, ela apresenta três épocas sucessivas de considerável extensão, mas todas efémeras, pois, em nenhuma delas, se conseguiu fixar uma tradição, mais precisamente, fundar uma escola. (Ver "História de Portugal", de Oliveira Martins, 11ª ed. pp. 327 - 328, 2º vol.)
A primeira é a Academia de História (1720 - 1731), a que presidiu o membro da Ordem dos Clérigos Regulares, D. António Caetano de Sousa, com a sua História Genealógica.
A segunda é a da Academia das Ciências (1780 - 1796), a que presidiu o historiador João Pedro Ribeiro, cónego das sés de Porto, Viseu e Faro, lente da Universidade de Coimbra e considerado fundador da Ciência Diplomática; foi autor de várias obras, nomeadamente a Dissertação Cronológica, as Reflexões, etc.
Finalmente, a terceira é a de Alexandre Herculano, com a sua História de Portugal.
Depois da História de Portugal de Herculano, a historiografia nacional extingue-se; isto não significa que não tenham aparecido trabalhos valiosos de História - apareceram alguns, mas o que não apareceu foi um conjunto de historiadores suficientemente grande e resoluto, que assumisse a responsabilidade de continuar a enfrentar as dificuldades dos trabalhos históricos.
Joaquim Barradas de Carvalho, no seu livro intitulado Da História - Crónica à História - Ciência (Colecção Horizonte nº 16, 1972, p. 90) informa que Alexandre Herculano caracterizou a sua História de Portugal como «a primeira tentativa de uma história crítica de Portugal» e informa ainda que António Sérgio aceitou esta caracterização de Herculano. No livro de António Sérgio, intitulado Breve Interpretação da História de Portugal (p.141) pode ler-se:

«A sua História (1846 - 1853) e o Verdadeiro Método de Estudar, de Verney (1747), são os dois livros capitais da cultura portuguesa, depois da época do Renascimento.»

De acordo com a opinião de Barradas de Carvalho, foi com Herculano que nasceu em Portugal a historiografia científica, pois, até então, a historiografia existente em Portugal não diferia profundamente daquela que faziam os cronistas medievais ou renascentistas, sejam eles Gomes Eanes de Azurara ou João de Barros, Rui de Pina ou Damião de Góis.
E Barradas de Carvalho teve o cuidado de explicar o motivo pelo qual não incluiu Fernão Lopes no seu conjunto dos cronistas mencionados. É que, conforme assinala barradas de Carvalho,

«Em Fernão Lopes existe o cronista, mas já existe também o historiador. Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes é cronista quando se ocupa de Nuno Álvares Pereira, o seu herói individual, de quem faz incondicionalmente o panegírico, tal como Zurara o faz para o Infante D. Henrique; é já historiador, como nenhum outro cronista, quando personifica a cidade de Lisboa, quando se ocupa do povo de Lisboa na Revolução de 1383, quando se ocupa do povo português, o seu herói colectivo; fica entre o cronista e o historiador, fica na transição da crónica à história, quando se ocupa de D. João I, mestre de Avis e rei de Portugal, por ele sempre criticado, o seu anti - herói, se assim lhe podemos chamar.
(...) O caso extraordinário, e mesmo inesperado, que nos parece ser o de Fernão Lopes, só poderá ter a sua explicação, se atentarmos no facto de que ele foi o cronista da Revolução de 1383, a primeira revolução burguesa da história da humanidade, `escala de uma nação.»

No capítulo Sobre história e ciências humanas, título de uma palestra realizada por Barradas de Carvalho, em 20 de Março e em 3 de Abril de 1968, no Anfiteatro Fernand Brandel, do Departamento de História para alunos do 1º ano do Curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, texto incluído no livro Da História -Crónica à História - Ciência, afirma-se, a certa altura o seguinte (p.66):

«A história, ciência das ciências do homem, a história, ciência fundamental entre as ciências sociais, ciência fundamental entre as ciências humanas, surge-nos, na verdade, muito logicamente - tal como a física teórica - como menos operacional de que qualquer das restantes ciências sociais, menos operacional do que qualquer das restantes ciências humanas. Menos operacional do que a geografia, menos operacional do que a economia, menos operacional do que a sociologia, menos operacional do que a política, menos operacional do que a psicologia.
Mas, entretanto, a prática colocou, relativamente, em dificuldade a teoria, a prática colocou, relativamente, em dificuldade a lógica desta nossa exposição. Para citarmos a amostra mais representativa, poderemos dizer que a historiografia francesa contemporânea, melhor, o sector verdadeiramente significativo, de vanguarda, da historiografia francesa contemporânea, modificou, transformou, revolucionou, relativamente, na prática, aquilo que nos parecia o quadro lógico.»

E Barradas de Carvalho continua, afirmando:

«O movimento esboçado por Henri Berr, com La Synthèse en Histoire e verdadeiramente lançado por Lucien Fèbvre e Marc Bloch - agora sob a direcção de Fernand Braudel, para s´citar os nomes mais expressivos - com a revista Annales (Économies - Societés - Civilisations) e com a VI Secção (Ciências Económicas e Sociais) da Escola Prática de Altos Estudos da Universidade de Paris, veio modificar substancialmente o esquema lógico a que nos referimos. E veio modificá-lo na medida em que desapareceram quase por completo as barreiras entre as diversas ciências humanas, entre as diversas ciências humanas, entre as diversas ciências sociais. Na medida em que se atenuou de maneira quase total a distinção entre a história e a geografia, a história e a economia, a história e a sociologia, a história e a política, a história e a psicologia, poderemos dizer que a história, as ciências históricas deixaram de ser tão menos operacionais do que as restantes ciências sociais, as restantes ciências humanas. Deixaram de ser tão menos operacionais, mas não deixaram de ser - está na sua natureza mesma - a ciência fundamental entre o complexo e variado naipe das ciências sociais, das ciências humanas.»

Heri Berr (1863 - 1954) - Foi Professor e teórico de História, que, em vários trabalhos, combateu o eruditismo como forma menor de investigação. Considerava a Síntese Histórica como a principal operação a realizar, devendo esta orientar-se pelo princípio da interacção das causas. Foi Director do Centro Internacional de Síntese e da Revue de Synthèse Historique (1900 - 1930), depois Revue de Synthèse (1930)
(Nova Enciclopédia Larousse, vol 4)

Lucien Febvre (1878 - 1956) - Historiador francês e professor da Universidade de Estrasburgo e do Colégio de França. Defensor das mais modernas concepções de historiografia, fundou com Marc Bloch os Annales d' Histoire Économique et Sociale. Foi continuador do pensamento de Henry Berr na Revue de Synthèse. Desde 1933, concebeu e orientou a Encyclopédie Française.
(Nova Enciclopédia Larousse, vol. 10)

Marc Bloch (1886 - 1944) - Professor de História Económica na Sorbonne; entrou para a Resistência Antifascista em 1942. Foi preso pela Gestapo e fuzilado, sem julgamento pelos nazis em 16 de Junho de 1944 (Ver Combates pela História, de Lucien Febvre, pag 241)

Fernand Braudel (1902 - 1985) - Historiador francês, foi Professor no Colégio de França, fundou a revista Annales juntamente com L. Febvre e Marc Bloch. Abriu a história ao estudo dos fenómenos de longa duração.
(Nova Enciclopédia Larousse, vol. 4)

Fernand Braudel é considerado um dos entusiastas da historiografia contemporânea. No seu livro Escritos sobre a História (tradução de Francisco Paiva Boléo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997), escreveu (p.81):

«Esta busca de uma história não factual [i.e., não limitada aos factos singulares] impôs-se de uma maneira imperiosa no contacto com as outras ciências do homem, contacto inevitável (as polémicas são prova disso) e que, em França, se organizou a partir de 1900, graças à maravilhosa Revue de Synthèse historique de Henri Berr, cuja leitura, retrospectivamente, é tão emocionante; a seguir, a partir de 1939, graças à vigorosa e muito eficaz campanha dos Annales de Lucien Febvre e Marc Bloch. A história dedicou-se desde então, a observar tanto os factos que se repetem como os singulares, tanto as realidades conscientes como as inconscientes. O historiador quis, desde então, ser e foi economista, sociólogo, antropólogo, demógrafo, psicólogo, linguista ... Estas novas ligações de espírito foram, simultaneamente, ligações de amizade e de coração. Os amigos de Lucien Febvre e de Marc Bloch, fundadores, animadores também eles dos Annales constituiram um colóquio permanente das ciências do homem, de Albert Demaugeon e de Jules Sion, os geógrafos, a Maurice Halbwachs, o sociólogo, de Charles Bloudel e de Henri Wallon, os psicólogos, a François Simiand, o filósofo - sociólogo - economista. Com eles, a história dedicou-se, bem ou mal, mas de maneira decidida, a todas as ciências do humano; ela quis-se, com os seus chefes de fila, uma impossível ciência global do homem. (...) Desde então, a história continuou nesta mesma linha a alimentar-se das outras ciências do homem.»

*

Já antes dissemos que este livro de Miguel Urbano, pelo modo como tratou o tema escolhido, pode motivar a elaboração de outros livros sobre temas análogos ao tema deste.
Este livro mostra que o seu Autor adquiriu uma grande experiência na divulgação da História política. De facto, Miguel Urbano não começou com este livro a sua vida de escritor em luta pela Democracia e pela Paz.
A sua luta já vem de longe. Só em em dois dos seus livros há anos publicados,
Da Resistência à Revolução, em 1975, e
Revolução e Vida, em 1978

podemos ler 75 artigos (40 no 1º livro e 35 no 2º), artigos que contêm textos publicados em jornais, essencialmente dedicados à luta contra o fascismo, contra o colonialismo, contra o imperialismo, especialmente o imperialismo americano, o mais perigoso de todos.
Com a leitura desses artigos, podemos aprender muito: aprender a lutar pela democracia,com firmeza e sem sectarismo.
A sua actividade política constitui um belo exemplo de amor à liberdade, à democracia, à solidariedade humana, ao socialismo; ao socialismo autêntico - não (evidentemente!) àquele socialismo que alguém muito apregoa, mas que o encerrou alegremente numa gaveta e nunca mais pensou em retirá-lo de lá ...
Peço licença, meus amigos, para terminar estas palestra, recordando uma frase que Miguel Urbano escreveu no fim do último artigo publicado no livro intitulado Revolução e Vida. A frase é a seguinte:

«Só a esquerda unida poderá desbravar a estrada que conduz ao socialismo.»

José Morgado

domingo, 28 de outubro de 2007

Discurso, no Coliseu do Porto, no Encerramento da Campanha da FEPU para as Eleições Autárquicas

Amigos!

Vamos no próximo domingo eleger os órgãos de poder local.
Pela natureza especial destas eleições, não se trata de uma prova de força entre os diversos partidos, dado que estas eleições não têm uma feição marcadamente partidária. Mas trata-se, sem dúvida de uma prova de força, por meios pacíficos, entre os que querem consolidar a Revolução e os que querem liquidar a Revolução.
Logo após o 25 de Abril, o Povo impôs o saneamento das autarquias locais, escolhendo directamente, em muitas localidades, comissões administrativas democráticas, atribuindo-lhes a incumbência de resolver alguns dos problemas mais prementes das populações.
Apesar da incompreensão e resistências muitas vezes encontradas em departamentos oficiais, tais comissões conseguíram, em muitos casos, realizar obra meritória, adquirindo apreciável treinamento de gestão democrática.
O estabelecimento de ligações entre essas comissões e organizações unitárias de base, tais como assembleias populares, comissões de moradores, comissões de aldeia, comissões de trabalhadores, revelou-se extraordinariamente fecundo, provocou um dinamismo especial em todas essas comissões, constituiu uma experiência importante a incorporar à experiência revolucionária do Povo Português.
Estes factos apontam naturalmente um caminho: é na base de um largo movimento unitário democrático que se deve, para defender a Revolução, concorrer às eleições para as autarquias locais. Foi a consciência desta necessidade que fez com que o PCP, o MDP, a FSP, democratas independentes se agrupassem na FRENTE ELEITORAL POVO UNIDO.
Nos primeiros dias após o 25 de Abril, a reacção ficou inteiramente desorientada, paralisada pelo medo das massas populares em movimento. No entanto, o desenrolar dos acontecimentos mostrou-lhe que havia na Revolução alguns sectores politicamente mais débeis ou menos dispostos a levar a Revolução até às suas consequências naturais. Por isso, a reacção começou a desenvolver as suas actividades primeiro encapotadamente, depois mais abertamente, consoante as possibilidades que o descaso de uns e a fraqueza de outros lhe ofereciam.
Manejando com mestria as suas armas específicas - a intriga, a calúnia contra revolucionários civis e militares, o empolamento agressivo das diferenças de opinião verificadas entre antifascistas, a radicalização das naturais divergências entre partidos democráticos, o aproveitamento da legislação fascista ainda não revogada, a formação de grupos provocatórios, a coordenação da actividade de tipo legal, por intermédio de partidos da direita, com a actividade clandestina da conspiração e do terrorismo - tudo a reacção tem usado oara recuperar o poder.
A campanha eleitoral para as autarquias locais tem sido largamente aproveitada pela reacção para reforçar a sua ofensiva contra a consolidação da Democracia.
Mobilizando os seus caciques, arregimentando os elementos da administração fascista a quem não foram retirados os direitos políticos, utilizando o poder económico, usando e abusando da complacência do governo para com a imprensa fascista, complacência que foi ao ponto de se afirmar que não iria haver leis contra a imprensa fascista, a reacção prepara-se afanosamente para se apoderar das autarquias locais; prepara-se para, através das autarquias locais, ditar a sua lei em importantes regiões do País, impor a sua ordem, suprimir as liberdades nessas regiões, partir de uma posição de força para exigir mudanças de política ou mudanças na própria constituição do governo.
A conquista das autarquias locais é, para reacção, uma etapa importante para tentar a conquista do poder, para forçar a liquidação da Revolução.
Poderá o Povo contar inteiramente com o governo como aliado para fazer fracassar os propósitos da reacção?
O governo, voluntariamente minoritário, voluntariamente sem força parlamentar, voltando deliberadamente as costas aos seus aliados naturais, tem-se revelado, em face da reacção, de uma debilidade confrangedora, de uma debilidade vizinha da cumplicidade, ao mesmo tempo que trata com sobranceria e arrogância as maiores vítimas da reacção.
No art.º 185, nº 2, da Constituição da República, determina-se:
«O Governo define e executa a sua política com respeito pela Constituição, por forma a corresponder aos objectivos da democracia e da construção do socialismo.»
Ora, em nosso entender, os ayaques sistemáticos à esquerda e os actos de conciliação com a direita, praticados por alguns membros do actual governo, não correspondem aos objectivos da democracia e da construção do socialismo.
Alguns dirigentes do partido governamental excedem-se em grosserias à esquerda e salamaleques à direita. Quase que tudo se passa como se eles fossem os portavozes da reacção e não dirigentes responsáveis de um grande partido democrático, o partido socialista. Assim, tais dirigentes, não só repelem tentativas sérias de unidade na acção das forças progressistas (como a FRENTE ELEITORAL POVO UNIDO), como até, valendo-se dos cargos que ocupam no governo, numa total falta de compostura, recorrem aos órgãos de comunicação social, para atacar e caluniar a FRENTE ELEITORAL POVO UNIDO.
Uma tal grosseria resulta ainda mais grave por ter sido feita em época eleitoral e não se ter permitido usar o direito de resposta pelo mesmo meio de comunicação social, apesar de o art.º 37, nº 4, da Constituição da República determinar:
«A todas as pessoas, singulares ou colectivas, é assegurado, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta.»
Por que motivo alguns dirigentes do partido governamental recusam a unidade da esquerda? Será por incompreensão dos perigos da reacção? ou por sectarismo?
Será que, em vez destas perguntas, deveremos antes perguntar com quem mantêm diálogo ou com quem fazem unidade alguns dirigentes do partido governamental?
Um dia o Povo Português saberá a resposta correcta a estas perguntas, um dia saberá até onde pode ir quem defende a ideia de que o capitalismo europeu e americano estão interessados em ajudar a construir o socialismo em Portugal.
Apesar de todas estas dúvidas, queremos ainda acreditar que dirigentes de um grande partido democrático, como o partido socialista, reconsiderem suas atitudes e resolvam dialogar com vistas à formação de um governo da maioria de esquerda, necessário à construção do socialismo na nossa Pátria.
Mas, de momento, a verdade é que, em nosso entender, o Povo não pode contar inteiramente com o governo para o defender das manobras, dos ataques, das conspirações da reacção. Tem de contar sobretudo com as suas próprias organizações, com a FRENTE ELEITORAL POVO UNIDO e com os agrupamentos políticos que a apoiam, para derrotar a reacção, desarticular o caciquismo e acabar com a corrupção.
Mau grado as dificuldades encontradas, há fortes motivos para termos confiança. Com efeito, as listas do POVO UNIDO foram elaboradas numa ampla base unitária e com larga participação popular. Delas fazem parte muitos cidadãos independentes e um número apreciável de cidadãos afectos ao partido socialista.
Unidos em torno de reivindicações específicas das freguesias e concelhos a que pertencem, muitos milhares de pessoas souberam ultrapassar eventuais limitações partidárias, dando um alto exemplo de clarividência, dedicação e civismo.
Qualquer que seja o resultado do acto eleitoral, as relações criadas, os problemas discutidos, a convivência cívica estabalecida como resultado da acção do POVO UNIDO, constituem um poderoso incentivo para o prosseguimento da luta pela formação de um governo que pratique de facto uma política que abra caminho ao socialismo.
Amigos socialista, com ou sem partido!
Em nosso entender, vós, tanto como nós próprios, estais interessados em derrotar a reacção e construir o socialismo na nossa Pátria.
Por isso mesmo, e sem prejuízo da vossa posição, partidária ou não, vinde connosco eleger, para as autarquias locais, os cidadãos que figuram nas listas do POVO UNIDO. Vamos todos juntos eleger, para a Câmara do Porto, Raul de Castro e seus companheiros! Vamos, todos juntos, eleger, para a Assembleia Municipal do Porto, Ruy Luís Gomes e seus companheiros!

VIVA A FRENTE ELEITORAL POVO UNIDO!

José Morgado

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Francisco Gomes Teixeira.Grande Matemático e Grande Professor

Francisco Gomes Teixeira, filho de Maria Madalena Machado e Manuel Gomes Teixeira, nasceu em 28 de Janeiro de 1851, em S.Cosmado, concelho de Armamar, distrito de Viseu. Teve dois irmãos: Pedro, que foi engenheiro militar e Sebastião, que foi, como seu pai, comerciante em S. Cosmado. Francisco Gomes Teixeira casou com Ana Arminda e este casal teve três filhas: Helena Meira, Berta Machado e Maria Vitória. Berta e Maria foram professoras de Matemática. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira informa que «seus pais destinavam-no primitivamente ao sacerdócio e, com esse fim, estudou primeiro na sua terra natal e depois no Liceu de Lamego; ao cabo de algum tempo, porém, um seu parente, Dr. Francisco Maria de Carvalho, médico, aconselhou os seus pais a aproveitarem as suas tendências para a ciência dos números, desde muito cedo revelada. Consultado o jovem Francisco mostrou-se hesitante, ou melhor, indiferente, entre seguir a carreira eclesiástica ou a matemática, pelo que seu pai resolveu recorrer às sortes, para a resolução do caso. A Matemática venceu a Teologia e matriculou-se Francisco Gomes Teixeira matriculou-se em Matemática na respectiva Faculdade da Universidade de Coimbra, em 1869.
Fez um curso brilhantíssimo, concluindo a formatura em 1874 com a classificação de 20 valores e doutorou-se em Matemática em 18 de Julho de 1875.» O livro do professor universitário e escritor Henrique Jardim de Vilhena (1879 -1958), intitulado O Professor Doutor Francisco Gomes Teixeira, menciona mais de 280 trabalhos de Gomes Teixeira, nos quais mais de 140 são de investigação. O primeiro destes trabalhos, Desenvolvimento das funções em fracções contínuas, foi elaborado em 1871, quando era ainda estudante.
Gomes Teixeira teve sempre a preocupação, não só de investigar, mas também de divulgar matemática. Em 1877 fundou o Jornal de Ciências Matemáticas e Astronómicas (cuja direcção assumiu) jornal que foi incorporado desde 1905 nos Anais Científicos da Academia Politécnica do Porto, intitulado desde 1929 Anais da Faculdade de Ciências do Porto, cuja direcção manteve até 1932.
Como se sabe, o físico francês Louis de Broglie (1892 - 1987), prémio Nobel da Física, num discurso proferido em 10 de Setembro de 1959, (...) achou por bem utilizar a seguinte afirmação do filósofo francês Charles Péguy (1873 - 1914) feita já cerca de meio século antes:

«Não há nada tão contrário às funções da Ciência como as funções do ensino, visto que as funções da Ciência exigem uma perpétua inquietação, enquanto que as funções de ensino exigem uma segurança imperturbável »

Louis de Broglie não se limitou a transcrever a afirmação do filósofo Charles Péguy - apoiou tal afirmação, quando proclamou que

«A investigação comporta necessariamente uma perpétua inquietação, o ensino tende por si próprio para uma segurança imperturbável que é o oposto da inquietação. É isto que Charles Péguy tinha impresso com clareza e muita sagacidade na frase que me serviu de tema»

Ora, uma coisa é um dado investigador não gostar de exercer funções docentes e outra coisa muito diferente é proclamar que entre a investigação e o ensino há uma oposição inelutável.
Por exemplo, o grande matemático Carl Friedrich Gauss não gostava do ensino; ele mesmo declarou

«Minha aversão ao ensino é facto consumado; a perene tarefa do professor de matemática, em rigor, resume-se ao ensino do ABC da sua ciência.» (Ver "A Magia dos Números" de Paul Karlson, p. 201)

No entanto, Gauss não proclamou a existência de uma oposição invencível entre investigação e ensino.
A vida e obra de Gomes Teixeira constituem, sem dúvida, um desmentido `afirmação de Charles Péguy sobre a existência de uma oposição invencível entre ensino e investigação. De facto, Gomes Teixeira foi considerado o primeiro matemático da Península Ibérica, no seu tempo, em consequência dos seus trabalhos de investigação e foi considerado também um grande professor, como assinalou Duarte Leite no artigo que publicou nos Anais da Faculdade de Ciências do Porto, vol. XVIII, pp 193 - 207, em 8 de Fevereiro de 1934, precisamente um ano após o falecimento de Gomes Teixeira.
Duarte Leite foi professor durante vários anos na Academia Politécnica do Porto e, a partir de 1911, na Faculdade de Ciências do Porto. Tinha-se formado nas Faculdade de Matemática e de Filosofia da Universidade de Coimbra (1885); foi diplomata (embaixador de Portugal no Rio de Janeiro de 1914 a 1931) e foi também historiador, tendo escrito "OS falsos precursores de Cabral" e vários trabalhos sobre os descobrimentos, que foram postumamente incluídos em "História dos Descobrimentos", 2 volumes, 1955 - 1962.
O livro intitulado Faculdade de Ciências do Porto, publicado em 1969, dá os títulos de 26 trabalhos de Duarte Leite, incluindo 4 relativos aos descobrimentos.
No artigo que escreveu sobre Gomes Teixeira, Duarte Leite, afirma o seguinte:

«Isento de severidade na avaliação das provas escolares, sempre tem presente o preceito pedagógico de estimular a curiosidade e o interesse do discípulo. Isto pode testemunhar a minha experiência pessoal e a de vários outros, que ele animou, como a mim, aos primeiros ensaios matemáticos. Tinha o amor da sua profissão que exerceu com proficiência e elevação, temperando com bondade natural a frieza necessária ao juiz; e dest'arte soube ganhar não só a admiração, como o respeito e a estima de gerações que receberam suas lições e o influxo do seu saber.
Foi o ensino que mostrou a bússula que o norteou nas suas pesquisas no campo da análise, à qual consagrou 30 anos de incessante produção.»

Estes seus trabalhos foram distribuídos, para efeitos de publicação, por nada menos de 46 revistas e colectâneas científicas, entre as de maior nome e mais difícil acesso, tais como: Journal de Liouville, nome pelo qual se tornou conhecido o Journal de Mathématiques Pures et Appliqueés, fundado em 1836 pelo matemático francês Joseph Liouville (1809 - 1882) e por ele dirigido até 1874 e onde ele publicou a maior parte dos trabalhos que elaborou sobre Teoria dos Números, Geometria e Física; o venerável Journal de Crelle, nome pelo qual ficou conhecido o Jounal für die reine und angewandte Mathematik (Jornal para a Matemática Pura e Aplicada) fundado em 1826 por August Leopold Crelle (1780 - 1855), em cujo primeiro número número são publicados 5 trabalhos de Abel e em cujo segundo número é publicado é publicado o trabalho de Abel que deu origem à teoria das funções duplamente periódicas; Acta Matemática fundado em Estocolmo por Miltag Leffler (1846 - 1927); o Quarterly Journal, cujo nome completo actual Quarterly Journal of Pure and Applied Mathematics, fundado em 1839 com o nome Cambridge Mathematical Journal, tornou-se Cambridge and Dublin Mathematical Journal, de 1846 a 1854 e, em 1855 tomou o nome completo acima indicado. Colaborou ainda nas publicações da Academia das Ciências de Lisboa, no Instituto de Coimbra e, até 1905, na revista que fundou, a que já nos referimos.
No artigo de Duarte Leite, pode ainda ler-se:

«A abundante e valiosa colaboração nas revistas matemáticas e as consequentes relações epistolares e pessoais trouxeram-lhe a satisfação de pertencer a mais de 15 corporações científicas de relêvo , de França, Itália, Alemanha, Bélgica, Espanha, Rússia, Techecoslováquia e de nações extra - europeias; assim de como conquistar os títulos de Doutor honoris causa pelas universidades de Madrid e de Toulouse e de membro honorário da Faculdade de Ciências de Lima [capital do Perú]»

Gomes Teixeira teve muitos outros títulos honoríficos, cargos importantes,condecorações e prémios, por exemplo: prémio D. Luis I, prémio, fora de concurso, da Academia das Ciências de Madrid, 1895; prémio da Academia de Ciências de Madrid, em concurso, 1990; prémio Binveut, de História das Ciências , da Academia das Ciências de Paris, 1917.
Para a concessão deste prémio foi decisivo o Relatório escrito de Paul Appell, em que sublinhou a alta importância da obra de Gomes Teixeira, nomeadamente o Tratado das Curvas Especiais Notáveis.
E o artigo de Duarte Leite termina assim:

«... a sua alma se imbuía de bondade efusiva, e não dava abrigo às baixesas da inveja e da maleficência. Teve o culto desinteressado da ciência. Por entre os triunfos que lhe valeram seus grandes talento e saber, vivem nas serenas alegrias do trabalho e do dever cumprido, confortado com o acatamento de seus concidadãos.
Foi um benemérito da pátria. Gloriemo-nos da sua obra, veneremos-lhe a memória, sigamos-lhe os nobres exemplos»

Porto, 10/02/00 José Morgado
Centro de Matemática
Universidade do Porto
[NOTA. O manuscrito que disponho encontra-se em mal estado)