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terça-feira, 15 de abril de 2008

Bento Caraça - Militante da Cultura, Militante da liberdade


Bento de Jesus Caraça

Militante da Cultura, Militante da Liberdade

Julgo que é uma acto de justiça uma Escola portuguesa prestar homenagem à memória do grande educador que foi o Professor Bento de Jesus Caraça. Uma escola Secundária, cujo patrono é Oliveira Martins, encara certamente com uma atenção especial a prestação de um tal acto de Justiça; porque, na vida de Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845 – 1894) en na vida de Bento de Jesus Caraça (1901 -1948), há alguns aspectos importantes que são comuns.

Na verdade, ambos tiveram que enfrentar e vencer grandes dificuldades económicas para se cultivarem, tiveram de se empregar mito cedo para sobreviverem. Oliveira Martins teve de abandonar os estudos oficiais que frequentava com vista alcançar um diploma em Engenharia Militar, em consequência do falecimento do seu pai, vitimado pela epidemia de febre-amarela (1857) e da falta de recursos de sua mãe; tornou-se empregado comercial com cerca de 15 anos de idade. Bento Caraça, filho de trabalhadores rurais, teve de começar muito cedo a exercer funções docentes para custear os seus estudos: primeiro como explicador; depois, tendo apenas 18 anos de idade, como 2º assistente do 1º grupo de cadeiras (Matemáticas Superiores – Álgebra Superior; Princípios de Análise Infinitesimal, Geometria Analítica) do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, actualmente Instituto Superior de Economia e Gestão.

Um e outro, dotados de invulgar inteligência, de grande força de vontade e sede de cultura, foram essencialmente autodidactas. Um e outro souberam vencer as limitações do autodidactismo, pela convivência com os trabalhadores intelectuais mais activos do seu tempo, mais preocupados em acabar com o isolamento desde há tanto tempo imposto ao nosso País pelas classes economicamente dominantes; isolamento, portugueses.

*

Lembrar que Oliveira Martins fez parte da comissão promotora das célebres Conferências Democráticas que tiveram lugar em 1871 no Casino Lisbonense e, por isso, ficaram sendo conhecidas como Conferências Democráticas do Casino, juntamente com Adolfo Coelho, Augusto Soromenho, Augusto Fuschini, Eça de Queirós, Germano Vieira de Meireles, Guilherme de Azevedo, Jaime Batalha Reis, Manuel de Arriaga, Salomão Saragga, Teófilo Bragae Antero de Quental.

Essas conferências «sobre matérias políticas e sociais» proclamavam no seu programas, datado de 1871:

«Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.

- Abrir uma tribuna, onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos;

- Ligar Portugal com o movimento moderno fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada;

- Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;

- Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;

-Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa.

Tal é o fim das conferências democráticas.

A primeira Conferência teve lugar a 27 de Maio de 1871 e coube a Antero de Quental realizá-la. Deu-lhe o título “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos Três Séculos” e começa assim:

«A decadência dos povos da península nos últimos três séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história oferece aos olhos do historiador filósofo.»

E mais adiante, Antero declarou:

«Durante 200 anos de fecunda elaboração, reforma a Europa culta as ciências antigas, cria seis ou sete ciências novas, a anatomia, a fisiologia, a química, a mecânica celeste, o cálculo diferencial, a crítica histórica, a geologia, aparecem os Newton, os Descartes, os Bacon, os Leibniz, os Harvey, os Buffon, os Ducange os Lavoisier, os Vico – onde está, entre os nomes destes e dos outros verdadeiros heróis da epopeia do pensamento, um nome espanhol ou português? Que nome espanhol ou português a liga à descoberta duma grande lei científica, dum sistema, dum facto capital? A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência; foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos.

(…) Pelo caminho da ignorância, da opressão e da miséria chega-se naturalmente, chega-se fatalmente à depravação dos costumes. E os costumes depravaram-se com efeito.

(…) Tais temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem liberdade, sem riqueza, sem ciência, sem invenção, sem costumes.»

Das várias conferências programadas, apenas se realizaram quatro. Além da realizada por Antero, tiveram lugar as seguintes: A Literatura Portuguesa Contemporânea, por Augusto Soromenho; O Realismo como Expressão de Arte, por Eça de Queirós; A Questão do Ensino, por Adolfo Coelho. Quando ia realizar-se a 5ª conferência, intitulada Os Historiadores Críticos de Jesus, por Salomão Sáragga, as pessoas que iam assistir encontraram as portas do casino fechadas e nelas estava afixada uma portaria do Presidente do Ministério, António José d’ Ávila, Marquês d’ Ávila e Bolama, datada desse mesmo dia, proibindo não só essa conferência, mas tosas as seguintes.

Às classes dominantes não convinha esta tentativa de alguns dos mais destacados intelectuais portugueses daquela época, para acabar com o isolamento do País.

A concorrência às conferências era notável: homens de letras, políticos de prestígio e alguns grupos de operários assistiram com muito agrado. As classes dominantes viam nas conferências um perigo para os seus interesses e, como eram dominantes, impuseram a sua vontade, acabando com as Conferências.

As Conferências Democráticas do Casino constituíram um belo exemplo da luta contra o isolamento, da luta pelas liberdades democráticas. Não foi totalmente vitorioso, mas também não foi uma tentativa fracassada. Ainda hoje, ao ler-se a Conferência de Antero de Quental e ao lembrar algumas lutas pelas liberdades democráticas no nosso País, não podemos deixar de sentir uma grande emoção.

*

Bento Caraça foi, não só um grande educador, mas também um grande lutador contra o isolamento científico, cultural e social que as classes dominantes têm imposto ao povo português; foi um grande lutador pelas liberdades democráticas.

A influência negativa do isolamento no atraso científico português foi posta em relevo pelo grande matemático português Gomes Teixeira, primeiro Reitor da Universidade do Porto. De facto, no “Elogio Histórico de Daniel Augusto da Silva”, contido em “Panegíricos e Conferências”, lido na Academia de Ciências de Lisboa, em 2 de Junho de 1918, Gomes Teixeira declarava:

«Não há nada mais prejudicial para a ciência de um povo, que o seu isolamento no meio da ciência dos outros povos. Este isolamento foi quase completo em Portugal na maior parte do século XIX e o motivo principal estava no desconhecimento da nossa língua nos meios científicos estrangeiros.»

O isolamento já existia muito antes do século XIX. Assim, Pedro José da Cunha, que veio a ser o Presidente da 1ª Direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática, escreveu no seu trabalho “Bosquejo Histórico das Matemáticas em Portugal”

«… enquanto os nossos matemáticos se viam assim isolados dos meios científicos de além – Pirenéus, as descobertas neste ramo das ciências sucediam-se lá fora, qual delas a mais brilhante. Viète criava a álgebra moderna, que recebia logo dos seus continuadores apreciáveis aperfeiçoamentos; Descartes, inventando a geometria analítica, renovava a geometria; Newton e Leibniz, por métodos idênticos na essência, mas diferentes na forma, lançavam os fundamentos da análise infinitesimal, que os irmãos Bernoulli consolidavam, adaptando a concepção de Leibniz; Nepier descobria os logaritmos; Fermat imprimia um avanço considerável à teoria dos números; Pascoal fundava o Cálculo das Probabilidades; abriam-se, numa palavra, em todos os ramos das matemáticas admiráveis horizontes, tão vastos como inesperados. E os geómetras que neste período de decadência, apesar de tudo, não deixámos de contar em Portugal, forçados a alhearem-se deste extraordinários movimento de renovação das ideias, só produziram obras mais ou menos antiquadas, de carácter quase exclusivamente didáctico, que em nada podiam contribuir para os progressos da ciência.»

*

Contribuiu para aumentar e manter o isolamento português com respeito à Europa e o isolamento dos portugueses com respeito a outros portugueses, a permanência da Inquisição em Portugal durante quase três séculos.

Foi em 1531 que D. João III pediu ao papa licença para instalar a Inquisição em Portugal. Em 1536 foi concedida tal licença e, em 1541, realizou-se o primeiro ato de fé. Segundo informa Oliveira Martins, no 2º volume da sua História de Portugal, pp. 191 – 192, até 1732, os autos de fé tinham penitenciado mais de 23000 pessoas e tinham queimado 1454, sendo, no entanto, desconhecido o número daqueles que morreram nos cárceres da Inquisição, vitimados pelas torturas tão habituais e tão refinadas. O número 1454 não inclui os que morreram em consequência das torturas…

O historiador Jaime Cortesão põe em relevo o facto de a Inquisição estar ao serviço das classes dominantes, quando afirma, na sua obra “Alexandre Cortesão e o Tratado de Madrid” (vol. I, p. 98):

«A Inquisição e o fanatismo inquisitorial eram apenas um dos aspectos da perversão do espírito religioso e da subordinação da Igreja ao absolutismo do Estado. Sob os efeitos dissolventes do ouro, o Estado, a nobreza e o alto clero haviam-se dado as mãos para impor a lei despótica dos seus interesses. Quebrada a velha mola da resistência organizada das classes populares – a burguesia e os mesteres – que outrora erguiam com vigor a voz nas cortes, o regime tendeu para uma espécie de despotismo teocrático, de forma exterior asiática que pesava, com aparato esplêndido, sobre os súbditos.

Mas entre o Rei, o alto – clero e a nobreza, existia a consciência da solidariedade dos interesses comuns.»

No seu livro “História Concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva salienta:

«(…)As fogueiras são, de entre as várias formas assumidas pela actividade inquisitorial, o que, pela sua publicidade espectacular, se tornou mais célebre e o que ainda hoje causa o maior horror. Mas houve outros aspectos menos visíveis, mas de consequências não menos graves.

Denunciar um delito contra a fé era considerado um dever religioso (…); a denúncia deixou de ser uma vileza odiosa e sórdida e foi proclamada como piedosa virtude.

(…) Foi a operação policial de maior duração e de maior envergadura que a história regista e, durante ela, toda a gente viveu entre o dever de denunciar e oterror de ser denunciado.»

*

Outro factor que influiu grandemente na manutenção do nosso atraso científico e cultural foi o facto de, a partir de certa altura, o ensino em Portugal ser praticamente dominado pela Companhia de Jesus. Por D. João III, foi entregue aos Jesuítas o ensino primário e secundário. Vinte e cinco anos depois de a Companhia de Jesus ter sido introduzida em Portugal, havia colégios jesuítas espalhados por todo o País. O colégio de Évora foi transformado em Universidade pelos Jesuítas, iniciando desta forma o seu domínio do ensino superior.

Em 1555, D. João III entregou-lhes o mais famoso de todos os colégios humanistas portugueses, o Colégio Real, também chamado Colégio das Artes e Humanidades, fundado por ele mesmo em 1547.

A Inquisição atacou o Colégio, receando que ele se transformasse num centro de livre pensamento. Alguns professores foram detidos em 1550, entre os quais o humanista, poeta, historiador e pedagogo português Diogo de Teive [?], que tinha ensinado em instituições estrangeiras.

Como escreveu Oliveira Marques no 2º volume da sua História de Portugal (p.131),

«Esta tentativa da Companhia de Jesus de dirigir a educação a todos níveis não se processou, evidentemente, sem resistências várias. A Universidade de Coimbra contou-se entre os opositores. As demais ordens religiosas, nomeadamente os Agostinhos e os Dominicanos, muito dados ao ensino e dispondo também de larga influência, reagiram com vigor, mas em vão. (…) As Cortes de 1562 também protestaram contra o número e influência crescente dos Jesuítas, elevando a voz contra a entrega do Colégio das Artes à sua direcção.

Nada, porém, resultou, Jesuítas, Inquisição e Coroa estavam, ao tempo, fortemente unidos contra a heresia, o fermento cultural e todo e qualquer desvio da política do Concílio de Trento. Através do País, grande número de professores sofreu perseguições de toda a ordem, sendo encarcerados, condenados ou forçados a largar as suas cátedras. (…) Universidades e Colégios entraram em fase de quase estagnação (…). O ensino oficial mostrou-se dificilmente permeável a qualquer progresso científico, rejeitando o avanço cultural que se ia verificando lá por fora e oferecendo um exemplo centenário de dogmatismo e inutilidade.»

Na “História da Revolução Portuguesa de 1820”, vol. I de José de Arriaga, pode ler-se:

«A matemática, a astronomia, a física, a química, a geologia, a zoologia, finalmente, todas as ciências naturais foram soterradas na mais profunda ignorância pelos da seita negra, que as condenaram como inimigas da religião, e ciências perigosas. A verdadeira e sólida instrução foi posta de parte, com o pensamento reservado de se enfraquecerem as inteligências, e destas aceitarem mais facilmente o jogo, tornando-se dóceis e submissas a tudo quanto lhes ensinassem.»

José Hermano Saraiva, referindo-se à pedagogia seguida nos colégios dirigidos pelos Jesuítas, afirma na sua História “Concisa de Portugal” (p. 197):

«O objectivo era o de enraizar dogmas em que sinceramente se acreditava, não o de provocar críticas, porque o resultado das críticas é sempre o fim dos dogmas. O ensino não foi, pois, um treino para pensar, mas um alicerce para crer. E deu resultado, porque os portugueses do século XVII creram muito mas pensaram pouco.»

Estas e outras referências ao atraso provocado por jesuítas não nos faz esquecer os serviços extraordinários que alguns prestaram à cultura e à ciência, em especial à Matemática.

*

O isolamento ainda recentemente foi denunciado como responsável pelo nosso atraso científico. No “Manifesto para a Ciência em Portugal”, de José Mariano Gago, publicado em Outubro de 1990, pode ler-se:

«O isolamento científico nacional, verdadeiro atavismo e fronteira do desenvolvimento português, exprime-se em várias frentes: a frente do isolamento do país em relação ao estrangeiro, aos grandes movimentos internacionais das ciências e das técnicas; a frente do isolamento da actividade científica na cultura e na sociedade, o seu enraizamento débil na sociedade, nas escolhas sociais e políticas, no ensino, nos meios de comunicação social, nas actividades económicas; e, por último, a frente do isolamento científico no próprio espaço nacional, onde a mobilidade é baixa, a colaboração interinstitucional pequena e o desequilíbrio regional no investimento para fins científicos se repercute negativamente em baixos índices do mobilização dos recursos humanos disponíveis e em fraquíssima congregação de esforços de diferentes parceiros sociais para o desenvolvimento de actividades científicas e técnicas à escala nacional, ou nas respectivas regiões.»

*

No final da década de 30 e um pouco mais de metade da década de 40, deste nosso século XX, fez-se um esforço muito sério para romper com o isolamento português.

Assim, em 1936, ano em que António Aniceto Monteiro regressou a Lisboa, após o seu doutoramento em Paris, foi criado o Núcleo de Matemática, Física e Química, em Lisboa, por António Aniceto Monteiro, Manuel Valadares, Aurélio Marques da Silva, António da Silveira e Peres de Carvalho.

Em 1937, António Monteiro, Hugo Ribeiro, Silva Paulo, Manuel Zaluar Nunes e Ruy Luís Gomes fundaram a revista Portugaliae Mathemetica, destinada à publicação de trabalhos de trabalhos originais de Matemática

Em 1938, foi fundado, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, em resultado de uma proposta apresentada ao Conselho Escolar do Instituto, por Bento de Jesus Caraça, Aureliano de Mira Fernandes e Caetano Beirão da Veiga.

Bento Caraça foi Director do Centro, desde a sua fundação até à sua extinção em 1946.

No ano da fundação Zaluar Nunes iniciou um curso de Cálculo das Probabilidades e Estatística Matemática, que se prolongou pelo ano seguinte.

Em 1939-1940 realizou-se no Centro um conjunto de Colóquios sobre Seguros, com a colaboração dos actuários Rinaldo Feliz Campião, Noronha, Castanheira Nunes e outros.

Em 1941-1942, iniciou-se um curso livre de Introdução à Economia Matemática Clássica, a cargo do Assistente Augusto Sá da Costa.

O Centro colaborou no Congresso de Córdova, de 1944, promovido pela Associação Luso – Espanhola Para o Progresso das Ciências, onde foi unanimemente aprovada a proposta de Bento Caraça relativa à unificação e à coordenação dos estudos demográficos sobre Portugal e Espanha.

No artigo de A. Sá da Costa, intitulado “Um aspecto da acção escolar do Professor Bento Caraça”, publicado na Gazeta de Matemática, nº 37 -39 (1948), p. 5, pode ler-se:

«A primeira tentativa para a introdução sistemática em Portugal dos métodos da Econometria deve-se ao Professor Bento Caraça e a importância desta tentativa não fica diminuída, nem pelos seus próprios e inevitáveis defeitos que representarão, depois de atentamente examinados, preciosa experiência adquirida, nem pela forma como se lhe pôs termo forçado.»

E termina, dizendo que

«a obra do Professor Bento Caraça, neste domínio, surgirá em toda a sua verdadeira extensão e revelará todos os seus autênticos méritos, dos quais não serão os menores a profunda intenção nacional e o total desinteresse pessoal com que foi realizada.»

No mesmo ano de 1938, por iniciativa de António Monteiro, foi fundado o Seminário Matemático de Lisboa, que, em Novembro de 1939, passou a ser chamado Seminário de Análise Geral.

Em 1939, Bento Caraça, António Monteiro, Hugo Ribeiro, Silva Paulo e Manuel Zaluar Nunes fundaram a revista Gazeta de Matemática, jornal dos concorrentes ao exame de aptidão e dos estudantes de Matemática das Escolas Superiores.

Bento Caraça dirigiu sempre a Secção de Pedagogia da Gazeta, onde publicou vários artigos de Matemática e de História da Matemática.

Em Fevereiro de 1940, por iniciativa de António Monteiro, foi fundado o Centro de Estudos Matemáticos do Lisboa.

Em Fevereiro de 1942, por iniciativa de Ruy Luís Gomes, foi fundado o Centro de Estudos Matemáticos do Porto.

Em 12 de Dezembro de 1940, nasceu a Sociedade Portuguesa de Matemática. Nasceu já com um grande atraso, proveniente naturalmente do isolamento científico, político e social do nosso País

Na verdade, em 1690, fundou-se a Sociedade Matemática de Hamburgo, que começou por ser a Sociedade dos Amigos dos Números e das Artes e, posteriormente a Sociedade para a Divulgação das Ciências Matemáticas.

Outra organização antiga foi a Sociedade Matemática, fundada inicialmente como um círculo de discussões em Spitalfields, em Londres, em 1717, sendo absorvida pela Real Sociedade Astronómica, em 1845.

Organizada em 1864 a Sociedade Matemática de Moscovo como um círculo de entusiastas pela Matemática, foi estabelecida, numa base mais ampla, em 1867.

Em 1865, foi fundada a Sociedade Matemática de Londres, que cresceu e se tornou, dentro de pouco tempo, a Sociedade matemática nacional britânica.

Em 1872, foi fundada a Sociedade Matemática de França.

Em 1888, foi fundada a Sociedade Matemática de Nova Iorque, que, em 1894, se tornou a Sociedade Matemática Americana.

Em 1890, fundou-se a Sociedade Matemática Alemã.

O Círculo Matemático de Palermo foi fundado em 1884 e a União Matemática Italiana em 1922.

*

Em 12 de Dezembro de 1940, pelas 22 horas, reuniu-se, na sala de Cálculo da Faculdade de Ciências de Lisboa, a Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Matemática (S.P.M.), para discussão e aprovação dos Estatutos e a eleição dos corpos gerentes.

Victor Hugo Duarte Lemos, Professor da Faculdade de Ciências de Lisboa, presidiu à sessão, secretariado por José Duarte da Silva Paulo, Professor do Ensino Secundário.

A apresentação e justificação do projecto de Estatutos foi feita por José Francisco Ramos e Costa, professor da Faculdade de ciências de Lisboa, e, após a aprovação de emendas propostas por António Monteiro, os Estatutos foram aprovados.

Procedeu-se em seguida à eleição dos corpos gerentes tendo sido eleitos:

Presidente da Assembleia Geral – Mira Fernandes;

Secretários – Ferreira de Macedo e Ramos e Costa;

Presidente da Direcção – Pedro José da Cunha;

Vice-Presidente – Victor Hugo;

Secretário-Geral – António Monteiro;

Tesoureiro – Zaluar Nunes;

1º Secretário – Maria Pilar Ribeiro;

2º Secretário – Augusto Sá da Costa;

Delegados à Associação Portuguesa para o Avanço da Ciência – Bento Caraça e Francisco Leite Pinto

Em 20 de Março de 1943 processou-se a 2ª eleição dos corpos gerentes da S.P.M. e Bento Caraça foi eleito Secretário-Geral da Direcção e Delegado à Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências.

Mira Fernandes foi eleito Presidente da Direcção, mas comunicou que lhe era impossível aceitar o cargo, de modo que se tornou necessário proceder a nova eleição e, então, Bento Caraça foi eleito para a Presidência da Direcção.

Em todas as outras eleições que se processaram durante a sua vida, Bento Caraça foi sempre eleito Delegado à Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências e houve sempre uma outra tarefa que ele desempenhou – a de presidir à Comissão Pedagógica da S.P.M.

*

Bento Caraça tinha um conceito de cultura que muito o ajudava no desempenho das suas funções de professor, nas suas funções de Director do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, nas funções que desempenhou na S.P.M. e na sua convivência com colegas e não colegas, com estudantes e não estudantes. Numa palestra que fez na Universidade Popular de Setúbal, em 22 de Março de 1931, Bento Caraça declarou:

«Eduquemos e cultivemos a consciência humana, acordemo-la quando estiver adormecida, demos a cada um a consciência completa de todos os seus direitos e de todos os seus deveres, da sua dignidade, da sua liberdade. Sejamos homens livres dentro do mais belo e nobre conceito de liberdade – o reconhecimento a todos do direito ao completo e amplo desenvolvimento das suas capacidades intelectuais, artísticas e materiais. Assim, cultura e liberdade identificam-se – sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura. Deve ainda a cultura tender ao desenvolvimento do espírito de solidariedade. Não apenas solidariedade de cada um com os da sua família, da sua aldeia ou da sua pátria – solidariedade do homem com todos os outros homens de todo o mundo.

Este internacionalismo não significa de modo nenhum a destruição da pátria, antes pelo contrário, implica a sua consolidação e o seu alargamento a todas a nacionalidades – a formação da pátria humana. O coração do homem é grande e nele cabe bem o amor da sua nacionalidade ao lado do amor de toda humanidade.»

Uma declaração semelhante, acerca do conceito de cultura foi feita uns anos mais tarde, em 11 de Junho de 1931, pelo grande físico francês Paul Langevin, na conferência feita no Museu Pedagógico, sob os auspícios da Sociedade Francesa de Pedagogia. A conferência intitulava-se “Contribuição do Ensino das Ciências Físicas para a Cultura Geral”. Langevin declarou o seguinte:

«(…) a cultura geral é o que permite ao indivíduo sentir plenamente a solidariedade com os outros homens, no espaço e no tempo, tanto da sua geração como das gerações que o precederam e das virão depois. Ser culto é, portanto, ter recebido e desenvolver constantemente uma iniciação nas diferentes formas de actividade humana, independentemente das que correspondem à profissão, de maneira a poder entrar largamente em contacto, em comunhão com os outros homens.»

Em várias outras conferências, Bento Caraça, em Portugal e Paul Langevin em França trataram o tema “Cultura”.

Por exemplo, Bento Caraça, na conferência intitulada “A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo”, realizada na União Cultural “Mocidade Livre”, em 25 de Maio de 1933, afirmou:

«A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade.

E para atingir esse cume elevado, acessível a todo o homem, como homem, e não apenas a uma classe ou grupo, não há sacrifício que não mereça fazer-se, não há canseira que deva evitar-se. A pureza que se respeita no alto compensa bem a fadiga da ladeira.

Condição indispensável para que o homem possa trilhar a senda da cultura – que ele seja economicamente independente. Consequência – o problema económico é, de todos, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. Tudo aquilo que for empreendido sem a resolução prévia, radical e séria, desse problema, não passará, ou duma tentativa ingénua, com vaga tinta filantrópica, destinada a perder-se na impotência, ou de uma mão cheia de pó, atirada aos olhos dos incautos.»

E Paul Langevin, na conferência intitulada “O Problema da Cultura Geral”, pronunciada no Congresso de Nice em 1932 e publicada por “Pour l’ Ere Nouvelle” em Outubro de 1932, diz a certa altura:

«(…) a verdadeira cultura geral é a que abre o homem a tudo o que não se limite a ele próprio, a tudo o que ultrapasse o círculo estreito da sua especialidade.

Aquilo a que aspiramos sob o nome de cultura viva e humana, é a consciência dos vínculos recíprocos entre as diversas actividades passadas e presentes, para preparar o futuro, do parentesco dos espíritos e da fraternidade das obras, é aquilo que dá sentido tão vasto como a própria sociedade ao menor dos esforços, um significado humano à actividade mais humilde. Compreender os outros, saber sair de si e do seu egoísmo para se colocar no ponto de vista dos outros, apreender as suas necessidades, colaborar na sua tarefa como numa obra comum não será um dos aspectos essenciais da vida social e moral? Essa virtude da humanidade não deveria ser o produto natural e principal das “humanidades”, se querem merecer tal nome?

*

É conhecida uma declaração de um dirigente nazi no sentido de que quando alguém lhe falava em cultura, ele puxava logo pela pistola.

O comportamento de dirigentes fascistas com respeito à cultura, quer se trate de alemães, italianos ou portugueses, é essencialmente o mesmo: puxando ou não puxando pela pistola, é um comportamento hostil.

Em todos os países onde o fascismo alcançou o poder, instalou-se a violência e desencadeou-se uma onda de perseguições contra professores, sobretudo contra aqueles que entendem que é seu dever ajudar os alunos a adquirir espírito crítico e autonomia mental. Ora os governantes fascistas não estão interessados em que os jovens adquiram espírito crítico e autonomia mental.

Como Evry Schatzman escreveu em 1971 (ver “La Sciènce Menaceé”):

«um ensino da ciência que não ensina a pensar, não é um ensino da ciência, é um ensino da submissão.»;

e foi um ensino da submissão o tipo de ensino que o fascismo consentiu.

No livro de Victor Farias, intitulado “Heidegger e o Nazismo”, p.120, alude-se a uma conversa, havida em Junho de 1933, entre Karl Jaspers (que estudou direito em Heidelberg e Gottingen) e Martin Heidegger (filósofo alemão, professor universitário e reitor da Universidade de Freiberg). A certa altura, Jarpers perguntou:

«Como pode V. pensar que um homem tão inculto como Hitler pode governar a Alemanha?

E o fervoroso nazi Heidegger respondeu:

«A cultura não tem importância!»

Esta resposta de um reitor de uma universidade dá bem uma ideia do respeito que a ciência e a cultura mereciam aos fervorosos nazis.

O que os nazis pretendiam fazer no campo da educação da juventude está bem patente na declaração que Hitler fez ao antigo Presidente do Senado de Dantzig, Hermann Rauschnigg:

«Eu quero uma juventude brutal, imperiosa, impávida e cruel.» (“Les Fascismes”, de Henri Michel, nº 1683, da Colecção “Que sais-je?”, p. 66)

O reitor, para quem “a cultura não tem importâncias”, proclamou num discurso aos estudantes:

«Não sejam os princípios e as “ideias” as regras da vossa existência.»O próprio Fuhrer, e só ele, é a realidade alemã de hoje e do futuro, é a sua lei.»

Em Outubro de 1939, as Universidades alemãs, com excepção das de Berlim, Munique, Iena e Viena, estavam encerradas. Foram 22 as universidades alemãs encerradas pelos nazis.

O desrespeito de Hitler pela palavra dada, a falta de consideração de Hitler pelos trabalhadores estão bem patentes no que se passou nos dias 1 e 2 de Maio do ano em que Hitler alcançou o poder. No dia 1 de Maio de 1933, foi organizada em Berlim uma primeira grande Festa do Trabalho. Hitler apresentou-se nessa Festa como defensor dos operários. Exactamente no dia seguinte, são suprimidos todos os sindicatos e os seus bens confiscados.

Estes e muitos outros exemplos de Hitler foram admirados e seguidos ou imitados, com mais ou menos rigor, pelo fascismo itsaliano e pelo fascismo português.

No livro intitulado “Mussolini et le fascisme”, de Paul Guichonnet [?], nº 1225 da colecção “Que sais-je?”, pode ler-se (p. 96)

«A imitação mais deplorável do nazismo foi a partir de Janeiro de 1938, a instauração do racismo e do anti-semitismo. Com o apoio de universitários complacentes, um “manifesto de defesa da raça” foi difundido, em Julho, exaltando a pureza do tipo físico italiano, imutável desde há mil anos e que devia ser preservado da sujeira. Foi seguido da criação do “Conselho Superior para a Demografia e a Raça”. Em Agosto, o regime começou a perseguir os judeus e a minoria israelita, enraizada desde há séculos (…). Apontar os judeus à reprovação pública e aos massacres perpetrados por ocasião da ocupação alemã e colocou uma marca de infâmia num regime que se comprazia em se apresentar como arauto da cultura e da civilização.

Muitos cientistas italianos foram expulsos das universidades, na sequência da legislação racista feita à semelhança da legislação e práticas alemãs.

Em Portugal, a propaganda do analfabetismo e as acções contra os professores começaram logo a seguir ao 28 de Maio e agravaram-se depois, quando Salazar assumiu a chefia do governo.

Logo em 1926 foi instituída a censura à imprensa e logo em 1926-1927, foram presas e deportadas para o Ultramar, várias centenas de pessoas.

Manuel Múrias, num artigo publicado no jornal “A Voz”, escreveu:

«E cedo ou tarde, os programas de instrução primária hão-de ficar reduzidos às matérias que lhes são essenciais: ler, escrever e contar, correctamente. Isto é essencial; o resto é acessório.» (citado em “Educação Nacional”, de 16 de Junho de 1929)

João Ameal, autor de uma “História de Portugal”, proclamou:

«Portugal não precisa de escolas (…) Ensinar o povo a ler é corromper oatavismo da raça.»

Alfredo Pimenta escreve o seguinte no jornal “A Voz”:

«Ensinar o povo português a ler e a escrever para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panfletários sem escrúpulos, ou de facécias mal cheirosas que no seu beco escuro vomita todos os dias qualquer garoto da vida airada ou das mentiras criminosas dos foliculários políticos – é inadmissível. Logo, concluo eu: para a péssima educação que possui e para a natureza da educação que lhe vão dar – o povo português já sabe demais (…).»

Virgínia de Castro e Almeida, escritora, que se dedica também a literatura infantil, conforme pode ler-se na “História do Ensino em Portugal”, de Rómulo de Carvalho,

«(…) considerando que existiam então [em 1927] 75 por cento de analfabetos, dizia no jornal “O Século”, que “A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75 por cento de analfabetos”. Em alusão aos rurais que aprenderam as primeiras letras, pergunta a escritora e responde: Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada.»

As opiniões destes aderentes do Estado Novo e de outros que aqui não citamos mostram até onde podiam ir aqueles para quem “cultura” não se identificava com “liberdade”.

O chefe do Estado Novo dizia que “ler, escrever e contar é suficiente para a maioria dos portugueses”.

Em 1937, são extintas as escolas oficiais infantis; desde modo o ensino infantil passou a ser privilégio da classe endinheirada.

Em 1936, são escerradas as Escolas Normais, que só serão reabertas em 1942. Numa altura em que havias mais de 50% de analfabetos, o encerramento das escolas de formação de professores primários, juntamente com a criação dos chamados postos escolares, onde a escolaridade obrigatória é reduzida de 4 para 3 anos, significa protecção oficial ao analfabetismo.

A expulsão de professores dos vários graus de ensino, a deficiência de meios pedagógicos em muitas das escolas existentes, as restrições à independência mental dos professores, a deficiência de meios materiais que atinge tantos profissionais do ensino, as restrições impostas à liberdade de associação dos professores e à liberdade de associação dos estudantes, tudo isto concorreu para desprestigiar o trabalho dos professores e o trabalho dos estudantes.

Muitos professores afastados compulsivamente das suas funções de ensino e investigação tiveram de mudar de profissão; outros viram-se forçados a aceitar convites de escolas estrangeiras para não deixar de ensinar e investigar.

Em 7 de Outubro de 1946, o Professor Bento de Jesus Caraça e também o Professor Mário de Azevedo Gomes foram demitidos pelo fascismo salazarista, a pretexto de um documento que ambos assinaram na qualidade de membros da Comissão Central do “Movimento de Unidade Democrática”, onde se entendia que o nosso país, ainda sob um regime fascista, não tinha condições para ingressar na ONU, organização promovida precisamente pelas nações vitoriosas na 2ª Guerra Mundial, em que o fascismo foi derrotado.

Em 25 de Junho de 1948, faleceu Bento de Jesus Caraça. Para além da colaboração que deixou nas revistas Técnica, Gazeta de Matemática, Seara Nova e Vértice e nos jornais O Globo, O Diabo e A Liberdade, das conferências As Universidades Populares e a Cultura, A vida e obra de Evaristo Galois, A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do nosso Tempo, Gaileu Galilei, Valor Científico e Valor Moral da sua Obra, Escola Única, A Arte e a Cultura Popular, Rabinbanath Tagore, Algumas Reflexões sobre a Arte, Aspectos do Problema Cultural Português, para além dos trabalhos matemáticos que deixou, Interpolação e Integração Numéricas, Lições de álgebra e Análise, Cálculo Vectorial, Conceitos Fundamentais da Matemática, para além de vários Outros Escritos, tais como A Luta Contra a Guerra, O Único Remédio, Crepúsculo da Europa, Crítica Científica, A Evolução da Física, Abel e Galois, Humanismo e Humanismo e Humanidades, etc., etc., para além de tudo isto – que é muito! – bento de Jesus Caraça, que tinha apenas 47 anos quando morreu, tinha ainda muito para dar à nossa Pátria, como militante da Cultura, como militante da Liberdade!

Permitam-me que termine aqui esta palestra, transcrevendo a parte final de um artigo do Professor Ruy Luís Gomes, publicado na Gazeta de Matemática, nº 37-38 (1948), intitulado “Bento Caraça, Grande Educador”:

«Alinhando com aqueles que pretendem transformar as nossas Universidades em Centros de Investigação e verdadeiras escolas de trabalho, escolheu como primeiro valor, no domínio da sua actividade de professor, a subordinação dos seus interesses imediatos a um interesse superior – o da preparação profissional da juventude.

E sacrificando tudo, desde a cátedra, de que foi afastado, até às exigências de uma saúde precária aos grandes valores morais – inteireza de carácter, sentimento de solidariedade e coerência de princípios – deu-nos a todos a melhor lição da sua vida.

O seu exemplo pertence ao património moral da nossa Pátria. O povo português nunca o esquecerá!»

(Palestra feita em 8/3/96, na Escola Secundária Oliveira Martins)

José Morgado,

Centro de Matemática da

Faculdade de Ciências do Porto

sábado, 5 de janeiro de 2008

Abel Salazar Jamais Será Esquecido







































Abel Salazar Jamais Será Esquecido

Em 13 de Maio de 1935, o Governo do Estado Novo, publicou o famoso decreto – lei nº 25317, a fim de dar uma aparência de legitimidade às perseguições políticas que tinha planeado e estava planeando.

Assim os dois primeiros artigos desse decreto-lei diziam o seguinte:

«Art. 1º. Os funcionários públicos ou empregados, civis ou militares, que tenham revelado ou revelem espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política, ou não dêem garantia de cooperar na realização dos fins superiores do Estado, serão aposentados ou reformados, se a isso tiverem direito, ou demitidos em caso contrário.

Art. 2º. Os indivíduos que se encontrarem nas condições do artigo anterior não poderão ser nomeados ou contratados para quaisquer cargos públicos nem admitidos a concurso para provimento neles.

A este artigo acrescenta-se o seguinte parágrafo:

§ Único: Quando o provimento se fizer mediante concurso por provas públicas, estas não poderão começar sem que ao respectivo Ministro seja dado conhecimento da lista dos candidatos com a antecedência de dez dias.

E seguiam-se outras disposições em que se determinava que a demissão, reforma ou aposentação e a exclusão de concursos ou escolas é sempre da competência do Conselho de Ministros. Das decisões deste quase omnipotente Conselho de Ministros só haverá recurso para o próprio Conselho, o qual será interposto, no prazo de oito dias, por simples requerimento, que poderá ser instruído com quaisquer documentos.

É claro que, com este decreto-lei, o governo salazarista ficava de mãos livres para demitir quem quisesse e impedir a participação num concurso de provas públicas aos candidatos de quem não gostava.

No art. 1º invocavam-se os princípios fundamentais da Constituição Política, Constituição que foi aprovada por plebiscito realizado em 19 de Março de 1933, plebiscito esse em que as abstenções foram descaradamente contadas como votos de aprovação.

Como qualquer dos outros governos fascistas então existentes, podia o governo do Estado Novo, com base no referido decreto, perseguir a seu bel-prazer os trabalhadores da Ciência e da Cultura, nomeadamente os professores de qualquer grau de ensino que considerasse desafecto ao regime.

Assim, logo após a publicação desse decreto-lei, foram expulsos, entre outros, os professores universitários Abel Salazar, Aurélio Quintanilha, Manuel Rodrigues Lapa, Sílvio Lima e Norton de Matos (então professor do Instituto Superior Técnico) e os professores do ensino primário Jaime Carvalhão Duarte, Costa Amaral e Manuel da Silva.

O famoso decreto-lei facilitava a perseguição governamental à ciência e à cultura, o que era uma espécie de mandamento do fascismo.

Como pode ler-se no artigo de Jacques Solomon intitulado Pour le Libre Développement de la Science, incluído no livro Pour la Science, da autoria de Joë Metzger (p. 152),

«Não se conhecem bem todos os golpes que o fascismo no poder conseguiu aplicar à pesquisa livre, à ciência, a qual receia que venha a ser um meio de libertação do homem. Desde à chegada de Hitler ao poder, as fogueiras de livros, as perseguições aos cientistas marcaram o desprezo dos fascistas pela inteligência. Em 1936, 1654 professores e eruditos tinham sido expulsos da Universidade; a maior Universidade alemã, a de Berlim, perdia a terça parte do seu efectivo. Em dez prémios Nobel da Física, cinco tiveram de deixar o país; em cinco prémios Nobel de Fisiologia e Medicina, três foram demitidos.»

Na página 96 do livro intitulado Mussolini et le fascisme, de Paul Guichonnet (nº 1225, da Colecção “Que sais-je?”), pode ler-se:

«A imitação mais deplorável do nazismo foi, a partir de 1938, a instauração do racismo e anti-semitismo. Com o apoio de universitários complacentes, um “manifesto em defesa da raça” foi difundido em Julho, exaltando a pureza do tipo físico italiano, imutável desde há mil anos e que devia ser preservado da sujeira. Foi seguido da criação do “Conselho Superior para a Demografia e a Raça”. Em Agosto, o regime começou a perseguir os judeus.»

Entre os professores perseguidos pelo fascismo italiano, contam-se: o astrónomo Arturo Guedes Horn, da Universidade de Bolonha, e os seguintes matemáticos: Beppo Levi e Benjamino Segre, da Universidade de Bolonha; Giron Fano, Guido Fubini, e Alessandro Terracini, da Universidade de Turim; Arturo Maroni, da Universidade de Pavia; Federigo Henriques e Túlio Levi-Cevita, da Universidade de Roma e Guido Ascoli, da Universidade de Milão.

Túlio Levi-Cevita (1873 – 1941) foi um grande matemático e um grande professor; os matemáticos portugueses Aureliano de Mira Fernandes (1884 – 1958) e Ruy Luís Gomes (1905 – 1984) correspondiam-se com Levi-Cevita, e foi por seu intermédio que Mira Fernandes publicou 17 trabalhos de investigação na revista italiana Rendiconti della Academia, no período 1928 – 1938 e Ruy Luís Gomes publicou 12 trabalhos de investigação, nessa revista, no período 1930 – 1937.

*

Pelo que diz respeito a Portugal, muitas outras expulsões de docentes foram feitas e muitos foram impedidos de exercer funções docentes, por recusa de renovação de contratos ou por não aprovação de propostas de contrato apresentados pelos estabelecimentos de ensino.

Em 1946, foram expulsos, entre outros os professores catedráticos Bento de Jesus Caraça e Mário de Azevedo Gomes e, em 1947, só de uma vez foram expulsos, além de 11 militares, 21 docentes do ensino universitário, 2 professores extraordinários e 8 assistentes. Ainda em 1947, por exemplo, o professor catedrático Ruy Luís Gomes e o assistente Laureano Barros, não incluídos nos 21. Nos anos seguintes, o Estado Novo continuou a sua perseguição aos trabalhadores da Ciência e da Cultura, ajudado não só pelo decreto-lei 25317, mas também por uma tradição que já vinha de mais de 200 anos que durou a Inquisição em Portugal, por outras ditaduras que o Povo Português sofreu e ainda pela propaganda do analfabetismo levada acabo por partidários do Estado Novo.

Por exemplo, a ditadura miguelista, em 1829 reduziu a 600 as 900 escolas primárias então existentes e, pouco depois, suprimiu mais 50.

Como Rómulo de Carvalho regista na sua História do Ensino em Portugal,

«Só uma lista datada de 1828 aponta 218 nomes de mestres e de professores, de primeiras letras e latim, que tinham sido afastados do serviço. Também os estudantes eram motivo de preocupações para o Estado. Em 1828 e 1829 foram mandados riscar da Universidade de Coimbra 457 estudantes.»

A ditadura de Costa Cabral reduziu o âmbito do ensino das escolas primárias. As escolas então existentes, continuariam a funcionar mas só como escolas do 1º grau. Quanto ao ensino secundário, essa ditadura suprimiu o ensino da Língua Francesa e da Língua Inglesa, da Física, da Química e da História Natural. Excepcionalmente, os liceus de Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Évora e ilhas Adjacentes podiam ensinar Francês e Inglês.

*

Entre os propagandistas do analfabetismo não se pode deixar de mencionar a escritora Virgínia de Castro e Almeida, que, em 1927, considerando que existiam nessa altura 75% de analfabetos,

«dizia, no jornal “O Século”, que “A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa, reside nesses 75% de analfabetos”. Em alusão aos rurais que aprenderam as primeiras letras, pergunta a escritora, e responde:

“Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esqueceram as letras e voltam à enxada.»

Não pode também deixar de ser mencionado João Ameal, que proclamou (ver Educação Nacional transcreveu) o seguinte:

«Ensinar o povo português a ler e a escrever, para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panfletários sem escrúpulos, ou de facécias mal cheirosas que no seu beco escuro vomita todos os dias qualquer garoto da vida airada ou das mentiras criminosas dos foliculários políticos – inadmissível (…) Um dos factores principais da criminalidade é a instrução (…)».

E vários outros propagandistas do analfabetismo podiam ser citados (ver O Ensino Primário 1911 – 1969, Contribuição Monográfica, vol. II, 2º Período: 1926-195, de Salvado Sampaio, Instituto Gulbenkian da Ciência, Centro de Investigação Pedagógica, Lisboa, 1976).

A propaganda de analfabetismo era oficialmente estimulada. Assim, numa entrevista a António Ferro, o ditador declarou:

Considero (…) mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler. É que os grandes problemas nacionais, têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.” (Ver Educação e Sociedade no Portugal de Salazar, de Maria Filomena Mónica, 1978, p. 116). O ministro da Educação Carneiro Pacheco determinou o encerramento das Escolas Normais em 1936 (reabertas somente em 1942) e extinguiu as escolas oficiais infantis em 1937, tudo isto numa altura em que era muito elevada a percentagem de analfabetos em Portugal.

*

A perseguição movida pelo fascismo contra Abel Salazar não se limitou a expulsá-lo da Faculdade de Medicina do Porto; Abel Salazar foi também proibido de trabalhar no seu Laboratório e de frequentar a sua Biblioteca, talvez para sublinhar que não se tratava apenas de perseguir o professor, mas de perseguir também o cientista que, como histologista, era já muito conhecido além fronteiras.

O fascismo em Portugal, como noutros países, era inimigo da Ciência.

Como declarou em 1946 o professor de Biologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, José Serra,

«Abel Salazar era um dos maiores, porventura o maior Biologista geral que já tivemos e mantinha relações amistosas com grande parte dos cultores da biologia e da Medicina portuguesas e com elevado número de colegas estrangeiros.»

Tempos depois, em 1941, na Faculdade de Farmácia do Porto, é criado um “Centro de Estudos Microscópicos”, sob o patrocínio do Instituto para a Alta Cultura. Abel Salazar dirigiu eese Centro e nele elaborou ou orientou cerca de 50 trabalos, alguns dos quais vieram a ter notável repercussão no estrangeiro.

Em colaboração, desde 1942, com o Instituto Português de Oncologia, a convite de Francisco Gentil, Abel Salazar publicou vários trabalhos científicos no Arquivo de Patologia.

Henrique Almeida, médico (já falecido), que foi aluno de Abel Salazar na cadeira de Histologia, escreveu o seguinte no seu livro Memórias ao Léu (p. 182):

«Eu chamava-lhe o nosso Leonardo da Vinci. E fui seu admirador incondicional, porque Abel Salazar gastou grande parte do seu talento a humanizar a vida, retratando criticamente as condições miseráveis da vivência das mulheres que, nos armazéns ou nas ruas, trabalhavam subjugadas ao poder económico capitalista.»

Assim, analogamente ao que aconteceu com Ruy luís Gomes e outros, Abel Salazar não se deixou vencer pelas perseguições que sofreu.

Embora em condições difíceis, continuou a trabalhar em Ciência, em Filosofia, em Arte. A sua acção como cientista, como filósofo, como artista, como cidadão, jamais será esquecida.

José Morgado

Centro de Matemática

Universidade do Porto

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Hugo Baptista Ribeiro matemático português que só pôde ensinar numa Universidade portuguesa depois do 25 de Abril


Hugo Baptista Ribeiro

Matemático português que só pôde ensinar numa Universidade portuguesa depois do 25 de Abril

(Publicado no Boletim da SPM – nº 12, Março de 1989)

Zaluar Nunes, Hugo Ribeiro e José Morgado

Em 26 de Fevereiro de 1988, faleceu Hugo Baptista Ribeiro.

A comunidade matemática portuguesa perdeu assim um dos elementos que mais se distinguiram, na década de 40, pelos seus trabalhos de investigação e pela sua actividade em defesa de uma melhor preparação científica e de melhores condições de trabalho dos professores de Matemática do nosso País.

Conheci pessoalmente Hugo Ribeiro em fins de 1942.

Juntamente com os meus amigos Laureano Barros e Fernando Soares David, conseguimos umas boas dezenas de assinantes para a revista Gazeta de Matemática, entre os nossos colegas do Curso de Matemática da Faculdade de Ciências do Porto. Alguns meses depois, Hugo Ribeiro e Zaluar Nunes tiveram de vir ao Porto contactar com professores e assistentes que trabalhavam no Centro de Estudos Matemáticos do Porto (fundado por Ruy Luís Gomes em Fevereiro do mesmo ano) e quiseram conversar com os estudantes que tinham angariado tantos(!) assinantes e que, por essa forma, tinham ajudado a ultrapassar algumas dificuldades financeiras que estavam então afligindo a direcção da Gazeta.

De vista, já nós conhecíamos Hugo Ribeiro.

Com efeito, em Junho de 1942, tinha-se realizado na Faculdade de Ciências do Porto o Congresso Luso – Espanhol para o Progresso das Ciências e tínhamos assistido à secção em que Hugo Ribeiro apresentou a sua comunicação. Tratava-se de alguns resultados que obtivera, em colaboração com António Aniceto Monteiro, sobre operadores de fecho em Sistemas Parcialmente Ordenados, resultado que foram depois publicados na revista Portugaliae Mathematica. (vol.3 (1942), pp 177 – 184)

*

Amigo e colaborador de António Aniceto Monteiro, sempre Hugo Ribeiro apoiou activamente as suas iniciativas no sentido de despertar o interesse dos jovens pela Matemática e fomentar o gosto pela investigação, nomeadamente as iniciativas que conduziram à criação das revistas Gazeta de Matemática e Portugaliae Mathematica, à fundação do Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Matemática.

A Gazeta de Matemática, jornal especialmente destinado a melhorar a preparação matemática dos estudantes, foi fundada em 1940, por António Monteiro, Bento Caraça, Hugo Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar Nunes.

Na Gazeta publicou Hugo Ribeiro artigos de Matemática, de feição elementar, como, por exemplo.

- Aplicações do Cálculo das Probabilidades à resolução de um problema de Biologia, em colaboração com A. Quintanilha e L. W. Stevens (Gaz. Mat., nº 10 (1941), pp. 4 -8)

-Notícia de um problema de Geometria e duma memória de Euler (Gaz. Mat. Nº 16 (1943), pp. 2 -3)

- Que é um quadriculado? (Gaz. Mat. Nº 27, (1946), pp 3 -5)

E publicou também outros artigos expositórios, de feição possivelmente menos elementar, tais como:

- Nota I (Gaz. Mat., nº 40 (1949), pp 19) em que se dá uma demonstração mais simples, de um resultado de Maurício Matos Peixoto, contido no artigo “Uma desigualdade entre números positivos” (Gaz. Mat. Nº 37 – 38 (1948), pp. 19 – 20);

- A classroom note on the proof of shur’s lemma (Gaz. Mat., nº 58 (1954), p. 11), apresentado, em 1951, no Encontro da Secção de Nebraska da Matemátical Association of America;

- Linguagens elementares e estruturas matemáticas (Gaz. Mat. Nº 113 -116 (1969), pp. 1 -8)

Mas oseu trabalho na Gazeta não se limitou a publicar artigos interessantes de Matemática, mais ou menos elementares. Por períodos mais ou menos longos, assumiu também a responsabilidade de uma Secção, como, por exemplo, a secção Temas de Estudo (ora isoladamente, ora em conjunto com o Centro de Estudos Matemáticos do Porto e a secção Movimento matemático (em colaboração com António Monteiro).

António Monteiro atribuía especial importância a esta secção.

De facto, num artigo publicado na Gazeta de Matemática, nº 10 (1942), pp 25 -26, escreveu:

«Pensou-se há algum tempo em publicar um jornal – que teria por título Movimento Matemático – destinado a lançar uma campanha para uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e a fazer propaganda das principais correntes do movimento matemático moderno.

Parece-me evidente a necessidade de publicar um tal jornal, precisamente porque o nosso país anda longe das correntes vitais do pensamento matemático moderno e porque o nosso ensino das ciências matemáticas necessita de uma remodelação completa: remodelação dos programas de estudo, da organização da licenciatura em Ciências Matemáticas, da preparação dos professores do ensino secundário, das provas de doutoramento e dos métodos de recrutamento do pessoal docente universitário.

É indiscutível que assistimos hoje ao nosso país a uma verdadeira efervescência da actividade no campo das Ciências Matemáticas.»

E depois de referir vários acontecimentos que corroboravam esta última afirmação, António Monteiro acrescentou:

«O desenvolvimento rápido da Gazeta de Matemática – em particular, a partir do início do presente ano lectivo – tornou possível o alargamento imediato da sua acção cultural e daí nasceu a ideia – para evitar uma dispersão de esforços que o momento actual não permite – de criar na Gazeta uma secção em que se desenvolveria pouco a pouco o plano de acção que se pretendia realizar no Movimento Matemático. É esta a origem desta secção que se iniciou no nº 9 da Gazeta.»

*

Hugo Ribeiro colaborou também, ainda que acidentalmente, nas secções Antologia, Boletim Bibliográfico e Pedagogia.

Para a secção Antologia, por exemplo, traduziu e publicou (Gaz. Mat. nº 4 (1940), p. 3) “Do Integral de Riemann ao Integral de Lebesgue”, extracto de uma conferência de Henri Lebesgue realizada em Copenhague e publicada na Revue de Mathematique et de Morale, 2 (1927).

Na secção Boletim Bibliográfico, publicou (Gaz. Mat., nº 32 (1947), p. 24) uma crítica ao livro de A. C. Aitken, “Determinants and Matrices”, 4ª ed., da colecção Univerty Mathematical Texts, crítica que tem um interesse especial por dar a conhecer o tipo de preocupações pedagógicas que Hugo Ribeiro sempre teve. A crítica começa logo por afirmar que

«Ensinar não é, propriamente, o objectivo deste livrinho»

e explica, em seguida, a razão desta afirmação:

«Contém matéria geralmente conhecida exposta de um modo que não tende a provocar o estudo próprio, nem mesmo progressivos comentários.»

E continua a sua apreciação, dizendo:

«Também não é, precisamente, um livro de Matemática: Trata-se de “a code and a calculus” de alguns capítulos de Álgebra Linear, onde ficam por esclarecer as ideias fundamentais. (…) não responde suficientemente a questões tais como: o que é uma matriz? Qual a medida do interesse da noção de determinante? Mas trata das regras que usualmente se aplicam ao cálculo de determinantes e nas operações entre matrizes (…). Da matriz como representação duma transformação linear, há pouco mais que uma citação inicial; ela é tratada como quadro de números.

Parece-nos evidente que os inconvenientes deste procedimento são análogos aos que resultariam de reduzir os números racionais e suas propriedades algébricas, por exemplo, respectivamente, à especial representação decimal e cálculo com decimais.»

E conclui sua crítica, condescendendo (moderadamente!):

«Mas pode recomendar-se este volume a quem queira ter uma oportunidade de adquirir rapidamente um primeiro treino de cálculo com esse objectivo sem se interessar pelas ideias fundamentais, isto é, dum ponto de vista não matemático»

As afirmações contidas nesta crítica são perfeitamente coerentes com todos os depoimentos de índole pedagógica que Hugo Ribeiro teve oportunidade de fazer, ao longo da sua vida de matemático e professor.

Assim, na secção Pedagogia, publicou um artigo que consideramos muito importante, intitulado “Sobre o treino de estudo dos nossos professores” (Gaz. Mat. nº 19 (1941), pp. 6-8).

Refere-se essencialmente ao treino de estudo adquirido durante o curso. Depois de salientar que grande parte do tempo lectivo da Licenciatura em Matemática (tal como estava organizada em 1944) era ocupada com Física, Mecânica, Mecânica Celeste, Astronomia, Geodesia, Cálculo das Probabilidades (visando especialmente Teoria dos Erros e Técnica de Seguros) e ainda que as noções propriamente matemáticas e certas técnicas gerais de cálculo, em Análise e Geometria, são adquiridas com vista àquelas aplicações matemáticas, Hugo Ribeiro lança a seguinte observação chocante:

«Parece que os nossos professores de Matemática não estudam, normalmente, Matemática, senão na medida em que esta Ciência tem que ver com certas aplicações especiais, certas técnicas, das quais se pode dizer, embora grosseiramente, que não interessam à sua profissão. (Nos liceus normais também não é Matemática, repetimos, mas a técnica do ensino da Matemática elementar, o objectivo das preocupações do futuro professor».

Hugo Ribeiro pensava – e dizia-o claramente! – que o estudo da Matemática, em função apenas de algumas aplicações a outras ciências ou a certas técnicas (de cuja importância duvidava), não beneficiava o necessário desenvolvimento do espírito crítico e agravava tendências, possivelmente existentes, para se deixar cair em mero automatismo.

De resto, para Hugo Ribeiro, «falta de espírito crítico e automatismo em Matemática aparecem naturalmente juntos e significam ignorância e inconsciência da ignorância» como escreveu nesse mesmo artigo.

Preocupado com esta ideia, esclarece:

«Como se sabe, a linha geral do desenvolvimento da Matemática é naturalmente traçada pelo do desenvolvimento social e, mais directamente e frequentemente, a partir das solicitações das técnicas e das ciências a que se aplicam de uma forma imediata. Este facto e o de que a Matemática é, por sua vez, origem de novos problemas e novas soluções no domínio destas ciências e técnicas não se contradizem.

A Matemática é, assim, considerada, tanto quanto isso é possível, um objecto de estudo isolado, independente.»

E, reforçando a ideia contida neste esclarecimento, chama a atenção para as consequências resultantes de tal ideia não ser tida em devida conta.

«E onde ela [a Matemática] assim não for considerada, não só terá o seu desenvolvimento próprio entravado, mas [terá] ainda [entravada] a sua aplicabilidade, diminuída a sua qualidade de reveladora de falta de falta de espírito crítico e [reveladora] do automatismo, etc. Os estudos matemáticos, mesmo os aparentemente e momentaneamente mais afastados das aplicações, ensinam-nos ainda (…) sobre a realidade que é a nossa maneira de pensar. E o conhecimento em Matemática não se adquire sem o exercício continuado do estudo, da resolução da curiosidade própria pelo esforço próprio, que exigem, se querem ser proveitosos, um treino longo convenientemente dirigido, inicial.»

E a propósito, numa nota de fundo de página, recomenda a leitura de um artigo de José Ribeiro de Albuquerque, “Duas demonstrações dum mesmo factor” (Gaz. Mat. nº 16 (1943), pp 3 -5), que termina pelas seguintes palavras: «Em Matemática ou em qualquer outro ramo do saber, mais valioso do que saber, é … saber reflectir»

E, em seguida, Hugo Ribeiro faz duas perguntas bem pertinentes:

«É a Matemática considerada, entre nós, normalmente, como uma ciência em desenvolvimento, sobre a qual há que actuar para a conhecer e que, embora relacionada com outras actividades, tem problemas próprios exigindo um treino especial e aturado, não delimitando (e muito menos normal e estritamente delimitado) pelas ciências e técnicas que ela serve? Este treino, estes problemas, são normalmente abordados pelos que hão-de ensiná-los?»

E, depois de salientar que, entre nós, ambas as respostas a estas perguntas são negativas, Hugo Ribeiro conclui:

«Se está, de facto, em causa uma tal oposição entre concepções tão distintas do estudo da Matemática (esta distância fornecerá uma primeira medida de novo atraso neste campo), a resolução de tal oposição é um problema primário; e, sem ela, são ilusórias, por longínquas, as posições da maioria dos outros problemas pedagógicos, como os de programas, métodos especiais, etc., etc.

O remédio, para esta causa especial, consistia em, sistematicamente, fornecer aos futuros e actuais professores uma preparação eficaz (…) com a frequência intensiva de seminários, dos mais diversos níveis, orientados por autênticos estudiosos.»

Naturalmente, Hugo Ribeiro teria ainda hoje muito a dizer no que respeita à formação de muitos professores de Matemática, conquanto a Universidade de hoje em Portugal seja bastante diferente, em alguns aspectos, da Universidade de 1944. É que, como se sabe, há professores de Matemática do Ciclo Preparatório que são licenciados em Biologia ou Geologia, cuja preparação matemática universitária se reduziu a uma disciplina anual ou duas semestrais, de Matemática, ensinada com vistas, exclusivamente, à sua possível utilização em Biologia ou Geologia. Outros, de formação mais recente, tiveram apenas uma disciplina semestral de Matemática para Biólogos e uma outra, semestral, de Bioestatística

Quanto a professores de Matemática do ensino secundário, há alguns cuja formação universitária é de engenheiros, tendo a sua preparação matemática consistindo apenas em cinco ou seis disciplinas semestrais de Matemática, ensinadas com vista, exclusivamente, à sua possível utilização em Engenharia! Esse conjunto de cinco ou seis disciplinas semestrais não compreende habitualmente nenhuma de Geometria e, com respeito à Álgebra, há apenas uma onde se dá um pouco de Álgebra Linear.

Em suma, ainda hoje é legalmente possível que um estudante que pretenda seguir uma licenciatura em Matemática entre na Universidade sem nunca ter tido uma única aula de Matemática dada por quem profissionalmente se tenha preparado para ser professor de Matemática! …

*

O nome de Hugo Ribeiro figura ainda, ao lado dos nomes de José da Silva Paulo e Manuel Zaluar Nunes, como cooperador de António Monteiro na edição da revista Portugaliae Mathematica, a partir de vol. 1, 2ª parte, fascículo 2 (1940).

No vol. 4, figura também, como cooperador, o nome de Ruy Luís Gomes e, a partir do vol. 5 (1946), aparece constituído o Corpo Directivo da Portugaliae Mathematica, com a seguinte composição: A. Monteiro, Hugo B. Ribeiro, José S. Paulo, M. Zaluar Nunes e Ruy Luís Gomes.

A partir de 1974, os componentes do Corpo Directivo figuram com constituindo o Corpo Directivo Fundador e aparece José Gaspar Teixeira como Director.

Na verdade, em consequência do falecimento de Zaluar Nunes, em 30 de Outubro de 1967, Gaspar Teixeira, que já antes assumira o encargo de dirigir a Gazeta de Matemática e a Tipografia Matemática, sentiu-se forçado a assumir também a tarefa de dirigir, desde então, a Portugaliae Mathematica. O último volume que dirigiu foi o nº 35 (1976).

Após a doação da Portugaliae à Sociedade Portuguesa de Matemática, feita por António Monteiro, os constituintes do Corpo Directivo Fundador passaram a ser designados por Fundadores e formou-se uma Comissão Editorial Executiva, composta por Alfredo Pereira Gomes (Director), Graciano N. de Oliveira, João Paulo Dias e Maria Luísa Noronha Galvão. Pouco depois, esta Comissão, a que se juntou Luís Sanchez, passou a chamar-se Comissão Editora e constituiu-se um Conselho Editorial, com matemáticos portugueses e estrangeiros.

A Comissão Editora procurou regularizar a publicação da Portugaliae, eliminando os atrasos que, havia já alguns anos , se vinham verificando, e procurou defender o nível científico da revista, submetendo os artigos enviados para publicação à apreciação prévia de “referees”. Como resultado desta orientação, a Portugaliae melhorou, de facto, o seu nível ciestífico, aumentou substancialmente o número de páginas por volume e está, finalmente, sendo publicada sem atrasos.

Em suma, a Portugaliae, presentemente, está correspondendo melhor aos objectivos para foi criada.

E quais são esses objectivos?

No artigo de Hugo Ribeiro intitulado “O que é a “Portugaliae Mathematica”?”, publicado no nº 17 da Gazeta, em Novembro de 1943, esclarece que a Portugaliae é

«a única revista portuguesa que publica, exclusivamente, trabalhos originais de Matemática»

E declara-se que a Portugaliae

«quere reflectir com justeza o desenvolvimento dos estudos matemáticos em Portugal; com este fim, reeditou já os trabalhos que o professor Mira Fernandes publicara em revistas estrangeiras. Quere também servir o desenvolvimento da colaboração internacional; e, neste sentido, no interesse evidente dos estudiosos portugueses, tem publicado (com uma frequência cada vez maior em cada novo volume) memórias vindas de diversos centros estrangeiros: de Cluj, na Roménia; de Roma; de Madrid; de Paris; de Princeton; de Rosário, Argentina; de Salamanca; de Zurique, etc. Entre os colaboradores permanentes figuram já Matemáticos aos quais a Ciência deve contribuições das mais importantes: o francês Maurice Fréchet, o americano John von Neumann, etc. é decerto escusado sublinhar a utilidade desta cooperação, sobretudo para o desenvolvimento dos estudos matemáticos em Portugal. O Professor Heinz Hopf, da Escola Politécnica Federal de Zurique, colaborador de muitas das mais importantes revistas de Matemática, e que é agora também colaborador permanente da Portugaliae Mathematica, e desinteressado e activo cooperador da sua expansão, considera-a uma publicação hoje excepcional, pela sua regularidade e pela diversidade de origem dos seus colaboradores e variedade do seu conteúdo.»

É preciso não esquecer que estas afirmações de Heinz Hopf foram feitas em 1943, em plena segunda guerra mundial, guerra em que Portugal não participou directamente, numa altura, portanto, em que era difícil, ou mesmo impossível, manter em dia revistas científicas de países beligerantes.

Poucos anos mais tarde , a situação da Portugaliae modificou-se para pior, sobretudo após a grande ofensiva fascista contra os trabalhadores científicos e contra as Universidades portuguesas, no ano de 1947.

A dispersão dos trabalhadores científicos provocada por esta e outras ofensivas reflectiu-se inevitavelmente e duramente na vida das revistas Portugaliae Mathematica e Gazeta de Matemática, prejudicando gravemente a sua expansão, a sua regularidade, a sua influência – recuperadas (para a Portugaliae), depois do 25 de Abril, pela Comissão Editora.

*

A acção desenvolvida por Hugo Ribeiro a favor da Portugaliae assumiu vários aspectos:

a) Colaboração intensa, sobretudo nos primeiros volumes, onde publicou os seguintes trabalhos:

- Sur l’axiomatique des espaces topologiques de M. Fréchet, vol. 1 (1940), pp. 259 – 274;

- Sur l’axiomatique dês espaces (V), (em colaboração com António Monteiro), id., id., pp. 275 - 288;

- Caractérisations dês espaces réguliers normaux et complètement normaux au moyen de l’opération de dérivation, vol 2 (1941), pp. 13 – 19;

- La cohérence d’un ensemble et les ensembles denses en soi, id., id., pp. 67 – 76;

- Quelques propriétés dês espaces (Cf) (em colaboração com Armando Gibert), id., id., pp. 110 -120;

Une estension de la notion de convergence, id., id., pp. 153 – 161;

- L’opération de ferture et ses invariants dans les systèmes partiellement ordonnés (em colaboração com António Monteiro), vol. 3 (1942), pp. 171 – 184.

- Sur les espaces à métrique faible, vol. 4 (1943), pp. 21 -40;

- Corretions à la note “Sur les espaces à métrique faible”, id., id., pp. 65 -68;

b) Permanente disponibilidade para analisar e discutir os problemas da Portugaliae;

c) Diligências no sentido de conseguir que matemáticos estrangeiros de grande prestígio enviassem trabalhos seus para publicação na Portugaliae;

d) Diligências no sentido de conseguir que revistas de matemática bem conceituadas pelo seu nível científico aceitassem troca com a Portugaliae.

O penúltimo artigo que Hugo Ribeiro publicou na Portugaliae foi incluído no vol. 39 (1980), dedicado à memória de António Monteiro, falecido em 29 de Outubro de 1980, em Bahia Blanca (Argentina). O artigo intitula-se “Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942” e é bem um testemunho da amizade e admiração que sempre teve por Aniceto Monteiro.

Antes da actuação de António Monteiro, qual era a situação da Matemática em Portugal?

Hugo Ribeiro, nesse artigo, responde:

«Com uma ou outra excepção, a Matemática (pura) não era cultivada em Portugal e, assim, as escolas superiores limitavam-se a preparar professores das escolas secundárias, ou técnicos e cientistas que porventura a utilizariam. Foi nesta atmosfera , enormemente agravada pela opressão da ditadura e as guerras civil de Espanha e na Europa, que Monteiro, não participante do ensino oficial, fez entrar uma lufada de ar fresco impulsionando decididamente a Matemática neste país. Este meu breve testemunho refere-se simplesmente ao Período 1939 -1942 em Lisboa onde ele criou as bases do desenvolvimento então impensáveis.»

Depois de mencionar várias iniciativas de Monteiro, Hugo Ribeiro termina o seu artigo declarando:

«Tudo isto impulsionou, decerto, o aparecimento e, depois, desenvolvimento das publicações matemáticas do Porto, da Portugaliae Physica, da Gazeta de Física, da Revista de Economia; e o contacto saudável, embora mais difícil, com outros centros de investigação que se tinham formado, como o da Estação Agronómica Nacional, contribuía para abrir perspectiva muito prometedoras e únicas no desenvolvimento do país.

Desenvolvia-se a correspondência com matemáticos estrangeiros, alguns dos quis enviavam trabalhados para a Portugaliae Mathematica, e Monteiro incitava-nos a comunicar com os provavelmente interessados no que fazíamos. Fréchet, Fantappié e Seviri vieram fazer lições no Centro. Monteiro conseguia para nós bolsas do IAC no estrangeiro. Mas a guerra na Europa e a burocracia eram dificuldades impossíveis ou difíceis de ultrapassar. Em 1942 um de nós foi para Zurique e três outros para Roma. De fora das escolas as portas para o futuro da Matemática em Portugal tinham sido, decidida e largamente, abertas, pelos esforços, dedicação e coragem de António Monteiro. Mais tarde, decerto com melhores oportunidades, um de nós, José Sebastião e Silva pôde manter aqui uma brisa desse ar fresco que, 40 anos depois, ainda podemos respirar.»

*

Em 1942, Hugo Ribeiro foi estudar para Zurique (Escola Politécnica Federal), como bolseiro do Instituto para Alta Cultura [IAC], até 1946, data 1946, data em que obteve o seu doutoramento, mediante a defesa da tese “Lattices dês groupes abéliens finis”, publicada depois na revista Commentarii Mathematici Helvetici, vol. XXIII (1949), pp 1 -17.

Enquanto esteve na Suíça, juntamente com sua esposa, Maria do Pilar Ribeiro, um e outro continuaram a participar, tanto quanto possível, na actividade matemática que se desenvolvia em Portugal, muito especialmente em actividade ligada à Gazeta de Matemática.

Com efeito, foi nesse período que Hugo Ribeiro publicou na Gazeta o artigo (tão necessário!) a que já fizemos referência, ”Sobre o treino de estudo dos nossos professores”, e foi nesse período que Maria do Pilar Ribeiro publicou uma série de artigos de um interesse cuja a importância é hoje difícil avaliar.

Tratava-se de artigos que nos davam informações bastante pormenorizadas acerca do ensino da Matemática na Suíça. Por seu intermédio, podíamos ficar com uma ideia de como o nosso ensino liceal e universitário estava desactualizado, quer em conteúdos, quer em métodos.

Sob o título geral “Sobre o ensino da Matemática na Suíça”, Maria do Pilar Ribeiro publicou artigos extraordinariamente úteis na Gazeta de Matemática nº 12 (1942), pp. 20 -22, nº 13 (1943), pp18 -19 e nº 14 (1943), pp. 13 -15. Com estes artigos, Maria do Pilar Ribeiro pôs ao alcance dos estudantes portugueses de Matemática informações preciosas, que tinham, pelo menos, a utilidade de apontar algo do muito que devíamos ter aprendido… No nº 24 (1945), pp. 15 -17, publicou mais um artigo, “Notícia sobre o ensino da Matemática em Zurique”, acompanhado de alguns pontos de exame do ensino secundário, de Matemática e Geometria Descritiva, sobre o que era exigido para a matrícula nas Universidades e Escola Politécnica Federal de Zurique (pp 17 – 19). No nº 19 (1944), pp11 – 14, publicou ainda uma tradução do panfleto “Conselhos aos estudantes da Secção de Matemática e Física da Escola Politécnica Federal de Zurique”, contendo recomendações muito esclarecedoras de como se processava o ensino em Zurique.

Por seu lado, Hugo Ribeiro publicou no nº 26 (1945) pp. 17 -19, um artigo de grande interesse, intitulado “Sobre a índole do ensino da Matemática em Zurique”, onde pode ler-se o seguinte:

«A formação “tão universal quanto possível em Matemática” que as duas escolas de Zurique dão ao matemático, em especial ao futuro professor de Matemática de qualquer escola superior ou média, pode talvez descrever-se grosseiramente pelos três seguintes objectivos que sucessivamente se devem atingir com o estudo e pelos adequados tipos de actividade e meios à disposição dos estudantes. O primeiro objectivo é o domínio de uma perfeita técnica de cálculo e da construção geométrica e obtém-se sobretudo nas lições e pró – seminários de Cálculo diferencial e integral e da Geometria descritiva e vectorial, lições fixas e comuns a físicos, engenheiros, etc. (1º e 2º semestres). O segundo objectivo é o perfeito conhecimento da estrutura (moderna!) dos capítulos basilares da Matemática, o domínio das principais noções e resultados e a compreensão dos problemas actuais e do desenvolvimento de cada teoria; isto consegue-se nos seminários e nas lições dos semestres seguintes, sobre Teoria das funções (3 semestres), Álgebra Linear, Geometria projectiva, Geometria diferencial, Álgebra, Equações diferenciais. O terceiro objectivo é o alargamento dos objectivos anteriores a um extenso conjunto de capítulos especiais, muitos dos quais à escolha, nos quais se pode desenvolver a curiosidade orientada e orientada e o trabalho próprio. Nunca antes dos 8 semestres faz o estudante o seu exame, depois de ter elaborado o trabalho de diploma que geralmente o ocupa durante um dois ou dois semestres. Este trabalho de diploma não inclui necessariamente um resultado original, mas é, antes, um estudo escolhido com um professor e orientado por este, frequentemente sobre alguma questão mal esclarecida na literatura.»

E o artigo termina, focando aquilo que mais o preocupava, aquilo que sempre o preocupou – os estudos matemáticos em Portugal:

«A formação matemática dos nossos professores de Matemática, das Universidades e das escolas médias é, para nós, o problema fundamental dos nossos estudos matemáticos. Em primeiro lugar, até, porque as importantes questões, de organização, de programas, etc. só poderão ser resolvidas convenientemente, cientificamente, por matemáticos experientes e a pouco e pouco, na medida em que estes existem no nosso país. Em segundo lugar, porque, sem professores com preparação científica, estas outras questões constituem ainda, de certo modo, pseudoproblemas, porque a sua resolução, não podendo traduzir-se através de uma actividade pedagógica autêntica, não terá valor efectivo.

Parece-nos evidente que os jovens que se propõem estudar Matemática para se tornarem professores, ou simplesmente investigadores, têm, antes do mais, que abandonar, decididamente, qualquer tipo de aprendizagem passiva e livresca.»

*

Regressados a Portugal em fins de 1946, Hugo Ribeiro e Maria Pilar Ribeiro retomam imediatamente as suas actividades de militância no movimento matemático português. No mesmo número da Gazeta (nº 30 (1946)) em que se noticiava que, em 7 de Outubro de 1946, Hugo Ribeiro se tinha doutorado na Escola Politécnica Federal de Zurique e que os referentes da sua tese tinham sido P. Bernays e H. Hopf, mencionava-se já Hugo Ribeiro como responsável pela secção Temas de Estudo (juntamente com o Centro de Estudos Matemáticos do Porto) e mencionava-se também Maria do Pilar Ribeiro como responsável pela secção Matemáticas Elementares (juntamente com A. Lopes e J. da Silva Paulo).

Em Janeiro de 1947, são ambos eleitos para direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática: Hugo Ribeiro para Secretário-Geral e Maria do Pilar Ribeiro para 1º Secretário.

Numa das primeiras reuniões da nova direcção da S.P.M., Hugo Ribeiro apresentou um projecto de plano de trabalhos e dele constava, além do mais, a proposta de se publicar uma tradução, para a nossa língua, da 2ª edição alemã da célebre Álgebra Moderna de Van der Waerden e também a proposta de se publicar uma tradução, para nossa língua, de não menos célebre obra de Hilbert, Fundamentos da Geometria. Hugo Ribeiro encarregar-se-ia da tradução do livro de Van der Waerden e Maria do Pilar, com a colaboração de José da Silva Paulo, encarregar-se-ia da tradução do livro de Hilbert.

É claro que estas propostas e todo o plano de trabalhos foram entusiástica e nanimemente aprovados.

Não era possível exagerar a importância que estas traduções viriam a ter para a cultura matemática portuguesa, dadas, por um lado, a pobreza da nossa literatura matemática e, por outro lado, a importância histórica que estas obras tiveram par o estudo da Álgebra e para o estudo dos Fundamento da Matemática.

Empenhou-se também, Hugo Ribeiro em reactivar o Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, que existia desde 1940. António Monteiro saíra de Portugal em 1945, a fim de ir trabalhar par o Brasil. Em consequência da sua posição antifascista, não consiguira uma colocação em nenhuma Universidade portuguesa. Precisando naturalmente de ganhar o seu pão pelo trabalho matemático, viu-se forçado a aceitar o convite da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro) para integrar o corpo docente daquela Faculdade. Alguns anos depois foi para a Argentina, acabando por se fixar na Universidade de Bahia Blanca, até à sua jubilação.

Com a saída A. Monteiro e a ida para Itália, como bolseiros, de alguns dos trabalhadores científicos do Centro, a actividade matemática em Lisboa diminuiu muito.

Antes da sua ida para Zurique, Hugo Ribeiro tinha trabalhado intensamente no Centro. Assim, em Novembro e Dezembro de 1941, realizou quatro conferências sobre a noção de Vizinhança e sobre o Objectivo da Tipologia Geral. Em Janeiro de 1942, realizou uma conferência sobre Espaços de Kuratowski. No Seminário de Análise Geral, a partir de Março de 1942, realizou colóquios sobre Estruturas da Lógica Clássica e Intuicionista e, em colaboração com Zaluar Nunes, realizou colóquios sobre Fundamentos modernos do Cálculo das Probabilidades. Pouco depois do seu regresso de Zurique, pôs a funcionar um Seminário de Álgebra, um Seminário de Fundamentos da Geometria e iniciou uma série de lições de Álgebra Linear para matemáticos e físicos.

Estas actividades funcionavam no Laboratório de Física da Faculdade de Ciências de Lisboa, mas já atrás referimos, o fascismo desencadeou em 1947, uma grande ofensiva contra os trabalhadores científicos e contra as Universidades.

De facto, a Polícia de Segurança Pública e a Pide, violando a própria “legalidade” fascista, invadiram a Faculdade de Medicina de Lisboa, invadiram inclusivamente salas de aula, gabinetes e laboratórios espancaram e prenderam estudantes, agrediram professores, incluindo o próprio Director da faculdade. Foi nesse ano de 1947, em meados de Junho, que, por Nota Oficiosa do Conselho de Ministros, foram expulsos cerca de duas dezenas de professores e assistentes universitários, conhecidos como democratas. Alguns assistentes viram nesse ano os seus contratos rescindidos, outros viram seus contratos não renovados, outros foram impedidos de entrar para o corpo docente universitário, por mera informação da Pide. Muitos licenciados foram impedidos de trabalhar até no ensino particular, porque lhes foi negado o necessário diploma de ensino particular.

Estas ofensivas contra os trabalhadores científicos e contra as universidades são amplamente referidas em vários artigos do saudoso amigo, historiador, Joaquim Barradas de Carvalho, publicados no jornal dos democratas portugueses residentes no Brasil, o “Portugal Democrático”.

No nº 85, de Agosto de 1964, no artigo intitulado “Os quadros Universitários”, escreveu Barradas de Carvalho:

«Uma das principais vítimas do obscurantismo salazarista tem sido a Universidade, e um dos principais meios de acção desse obscurantismo as “limpezas” sucessivas a que ela tem sido submetida. Às demissões isoladas sucedem-se as demissões colectivas e a estas sucedeu um apertado policiamento na admissão de professores. A P.I.D.E. (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) passou a desempenhar mais do que importante, porque mesmo decisivo, na admissão de professores nos quadros docentes das Universidades

Em mais de trinta anos de regime salazarista, a Universidade portuguesa tem sofrido golpes só comparáveis aos sofridos pela Universidade alemã nos tempos de Hitler, pela Universidade italiana nos tempos de Mussolini ou pela Universidade espanhola no período de instauração do regime de Franco.

(…) Entre os professores universitários demitidos pelo regime de Salazar encontramo-los de todos os credos políticos e religiosos, não faltando mesmo no amplo naipe os monárquicos e os católicos. Mas se o regime salazarista não distinguiu entre os credos políticos e religiosos, alguma coisa ele distinguiu e bem: a competência científica e docente dos atingidos. Não sofre dúvidas para ninguém, nem para a própria minoria salazarista, que os demitidos parecem ter sido cuidadosamente escolhidos entre os melhores quadros científicos e docentes das já pobres Universidades portuguesas.

(…) A lista mais numerosa [dos docentes expulsos] é a dos matemáticos, todos das Universidades de Lisboa e do Porto.»

E depois de citar uma dúzia de matemáticos expulsos, fala de António Monteiro e Hugo Ribeiro.

«Nem António Aniceto Monteiro nem Hugo Ribeiro, depois de doutoramentos em grandes centros matemáticos do estrangeiro, e com as mais altas classificações, de trabalhos de pesquisa de renome internacional, conseguiram ser admitidos nos quadros docentes das Universidades portuguesas.»

Este artigo e vários outros de Barradas de Carvalho, publicados no Portugal Democrático, foram reunidos num volume, “O Obscurantismo Salazarista”, editado pela Seara Nova, em 1974, depois do 25 de Abril.

O nome de Hugo Ribeiro é referido em outros artigos deste mesmo livro: Investigadores que não puderam trabalhar na Universidade Portuguesa; Mais Notas Sobre a Investigação Científica sob o Salazarismo; Ruy Luís Gomes; Caetano Professor.

Hugo Ribeiro, após o regresso de Zurique, requereu, como era normal, equivalência do seu doutoramento ao grau de doutor pela Universidade portuguesa, mas o Ministério dito da Educação nem sequer deu resposta.

Zaluar Nunes propôs a sua entrada como assistente (!) para o Instituto Superior de Agronomia, onde era professor. A proposta não teve seguimento e Zaluar Nunes foi um dos expulsos pela Nota Oficiosa de Junho de 1947.

Os centros de Matemática, na sequência das acções repressivas levadas a cabo pelo fascismo, ficaram paralisados, praticamente esvaziados, desapareceram. Hugo Ribeiro procurou ainda reactivar o Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, mediante diligências feitas no Instituto para a Alta Cultura, mas o clima de feroz repressão, por um lado ,e a incompreensão de alguns trabalhadores científicos, por outro, não viabilizaram as suas diligências.

Os Seminários deixaram de se poder fazer no Laboratório de Física, porque os físicos que facilitaram a sua realização nas dependências do Laboratório tinham também sido expulsos pela Nota Oficiosa.

Em face disto, os Seminários ainda continuaram, por algum tempo, na própria casa de Hugo, no Murtal, S. Pedro do Estoril; mas acabaram por parar também, até pela chegada das férias grandes e a consequente dispersão de alguns dos interessados.

E assim, Hugo Ribeiro, doutorado em Zurique, prémio Artur Malheiros, com um currículo valioso, com grande capacidade de trabalho e iniciativa, profundamente interessado no fortalecimento do movimento matemático português, viu-se forçado, para continuar a trabalhar em Matemática, a aceitar um posto de trabalho na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Passou depois por outras Universidades americanas, como a University of Nebraska e a Pensylvania State University, University Park, Pa. Colaborou noutras revistas além da Gazeta de Matemática e da Portugaliae Mathematica: Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa, Summa Brasiliensis Mathematica, American Journal of Mathematics, Archiv für mathematische Logik und Grundiagenforschung, Algebra i Logika (Novosibirsk, URSS). Publicou também um número considerável de notícias críticas de trabalhos de Lógica e de Álgebra, no Journal of Symbolic Logic e em Mathematical Reviews. Resumos de comunicações suas apareceram em Las Ciencias, de Madrid; Notices of the American Mathematical Society, Summaries of the Summer Institute for Symbolic Logic na Cornell University, 1957; Trabalhos do Congresso Internacional de Matemática, Moscovo, 1968, etc.

Em 1960, nos meses de Julho e Agosto, tivemos a alegria de voltar a conviver com o casal exemplar e amigo, Hugo e Pilar, em Recife. É que, devido essencialmente à iniciativa de Zaluar Nunes e Alfredo Pereira Gomes, foi possível conseguir que Hugo Ribeiro estivesse na Universidade Federal de Pernambuco, como professor visitante. Fez então um curso de Grupos Abelianos Infinitos e várias conferências sobre temas de Lógica Matemática.

Reencontrámo-nos, 10 anos depois, em Nice, no Congresso Internacional de Matemáticos.

Após o 25 de Abril, precisamente em Novembro de 1975, Hugo Ribeiro e Maria do Pilar Ribeiro, já aposentados como professores nos Estados Unidos, foram à Reitoria da Universidade do Porto, oferecer os seus serviços docentes, uma vez que se sentiam com saúde e com muita vontade de trabalhar em Portugal.

A Universidade do Porto não podia perder (e não perdeu!) esta oportunidade.

Hugo Ribeiro e Maria do Pilar Ribeiro ensinaram Matemática nesta Universidade durante quatro anos.

Durante quatro anos, a actividade matemática da Faculdade de Ciências do Porto pôde beneficiar do seu espírito de colaboração, do seu saber, da sua experiência.

Assim, só depois do 25 de Abril pôde Hugo Ribeiro ensinar numa Universidade Portuguesa e, para nosso contentamento, essa Universidade foi a Universidade do Porto.

José Morgado