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terça-feira, 1 de abril de 2008

Bento Caraça

Cultura e Revolução

(Intervenção no

Palácio de Cristal

24 – 11 – 1978)

Amigos!

Ao recordarmos o que foram a vida e a obra de Bento de Jesus Caraça, fomos naturalmente levados a pensar na vida e na obra do físico Paul Langevin.

É verdade que há apreciável diferença, quantitativa e qualitativa, entre a produção científica de Paul Langevin e a produção científica de Bento Caraça – o que bem se compreende, se se tiver em conta a enormíssima diferença entre o meio científico francês e o meio científico português. As oportunidades que um e outro meio oferecem a quem pretenda seguirem pelo caminho da investigação são muitíssimo desiguais.

No entanto, sob muitos outros aspectos, as vidas dos dois grandes cidadãos, o físico francês Paul Langevin e o matemático português Bento Caraça, apresentam-se-nos como muito semelhantes.

Assim, ambos foram brilhantes professores que viveram apaixonadamente a sua profissão, ambos desenvolveram intensa acção cultural para além dos que foram seus alunos e para além das suas escolas, ambos pugnavam tenazmente pela democratização do ensino e da cultura, ambos foram destacados militantes antifascistas, ambos se dedicaram a cimentar a unidade de acção de todas as correntes antifascistas, ambos foram perseguidos e presos – Langevin, pela Gestapo e Bento Caraça, pela Pide – ambos, pelos seus actos e pelas suas palavras, se afirmaram sempre partidários da Paz entre os Povos, ambos lutaram persistentemente e abnegadamente pela libertação económica dos seus povos, ambos abraçaram a causa do socialismo.

Na verdade, ambos foram intelectuais comprometidos com a libertação dos seus povos, ambos tinham, fundamentalmente, o mesmo conceito de cultura.

Segundo Langevin, vai-se tornando cada dia mais claro que a unidade de todos os trabalhadores – quer manuais, quer intelectuais – é essencial à construção do mundo novo – mundo sem fome e sem guerra, mundo de justiça e de liberdade.

As diversas formas de actividade humana, manuais e espirituais, após uma separação de tantos séculos, voltam a encontrar-se por força da sua própria evolução e fecundam-se mutuamente e essa fecundação permitirá a libertação material e espiritual, permitirá uma vida melhor para todos.

Daqui nasce também, segundo Langevin, um sentimento de solidariedade entre todos os trabalhadores, daqui nasce um interesse comum a todos os trabalhadores, manuais e intelectuais, interesse que se confunde com o interesse mais profundo da espécie humana, a sua própria sobrevivência.

Ora, não há liberdade efectiva sem independência económica e a conquista da independência económica exige a utilização dos meios de acção concebidos pela ciência. Assim, os trabalhadores manuais, na luta pela sua libertação, na luta pela sua sobrevivência, não podem prescindir dos trabalhadores intelectuais.

Por outro lado, o desenvolvimento da ciência só é possível, utilizando-se os meios materiais criados pela técnica. Assim, os trabalhadores intelectuais, para o desenvolvimento do seu próprio trabalho, para a sua própria sobrevivência, não podem prescindir dos trabalhadores manuais.

A criação de tais meios materiais oferecidos pela técnica exige o recrutamento de muitos homens, exige o aproveitamento de todas as aptidões intelectuais, exige que o direito à educação não seja letra morta.

É ainda Langevin quem afirma que tanto a ciência como a técnica exigem formação intelectual, cada vez mais elevada, para todos os trabalhadores. A fecundação da acção pelo pensamento, da faculdade de actuar pela preocupação de compreender, é comum a todas as formas de actividade humana.

Estas ideias de Paul Langevin vêm expressas num artigo escrito para o jornal Vie Ouvrière, por ocasião do 1º de Maio de 1937.

Já antes, em 1931, Paul Langevin tinha afirmado que

«a cultura geral é aquilo que permite ao indivíduo sentir plenamente a sua solidariedade com os outros homens, no espaço e no tempo, com os homens da sua geração como com as geração que a precederam e com as gerações que virão depois. Ser culto é, portanto, ter recebido e desenvolver constantemente uma iniciação às diferentes formas de actividade humana, independentemente daquelas que correspondem à profissão, de maneira a poder estar amplamente em contacto, em comunhão com os outros homens.»

Afirmações semelhantes foram feitas repetidas vezes por Langevin, nomeadamente no 1º Congresso Internacional de Educadores, realizado em Nice, em 1932.

Estas ideias de solidariedade com os outros homens, tão bem sublinhada por Langevin a propósito do conceito de cultura, foi, pela mesma altura, posta em relevo, com toda a clareza, por Bento Caraça.

Com efeito, em 22 de Março de 1931, numa conferência realizada na Universidade Popular de Setúbal, Bento Caraça declarou:

«Deve ainda a cultura tender ao desenvolvimento do espírito de solidariedade. Não apenas de cada um com os da sua família, da sua aldeia ou da sua pátria – solidariedade do homem com os outros homens de todo o Mundo.»

E Bento Caraça acrescenta:

«Este internacionalismo não significa de modo algum a destruição da pátria, antes pelo contrário, implica a sua consolidação e o seu alargamento a todas as nacionalidades – a formação da pátria humana. O coração do homem é grande e nele cabe o amor da sua nacionalidade ao lado do amor de toda a humanidade.»

Nessa mesma conferência, Bento Caraça formula as perguntas:

«Quem deve ser detentor da cultura? A massa geral da humanidade ou parte dela?

Para responder a estas perguntas, Bento Caraça começa por observar que

«Esta questão põe-nos em frente do problema das elites e das castas e a experiência histórica ensina que sempre que um grupo se diferencia da massa geral da humanidade, por qualquer título, estabelecendo um monopólio de qualquer coisa – ideias, força ou dinheiro – fá-lo, não no interesse geral da massa, mas no seu próprio.»

Após algumas considerações sobre os principais tipos de castas – religiosas, capitalista e militares – Bento Caraça conclui condenando sem apelo

«a detenção da cultura como monopólio de uma elite»

e preconiza insistentemente que se deve promover

«a cultura de todos e isso é possível, porque ela não é inacessível à massa; o ser humano é indefinidamente aperfeiçoável e a cultura é exactamente a condição indispensável desse aperfeiçoamento progressivo e constante.»

E Bento Caraça prossegue:

«Compreendendo a cultura assim e não como um conjunto de ideias que estão escritas nos livros e que os estudantes têm que decorar não se sabe bem para quê, quais dever ser os seus objectivos e que formação mental deve procurar conseguir no homem?

Deve, em primeiro lugar, dar a cada homem a consciência integral da sua própria dignidade.»

A ideia de que o ser humano é indefinidamente aperfeiçoável, defendida por Karl Marx, para quem a cultura “compreende o máximo desenvolvimento das capacidades intelectuais, estéticas e materiais encontradas no homem”, foi, e é, como não podia deixar de acontecer, ferozmente combatida pelos fascistas, que negam o valor da ciência para a libertação humana.

Assim, segundo as próprias palavras de Mussolini,

«O fascismo repele o mito felicidade e do progresso indefinido … Ele não acredita na possibilidade da “felicidade sobre a terra”, como pretendia a literatura dos economistas do século XVIII»,

e, segundo as próprias palavras de Hitler,

«O homem não deve nunca cair no erro de acreditar que atingiu verdadeiramente a dignidade de senhor e dono da natureza.»

Enquanto que os fascistas, em Portugal, decretavam que “ler, escrever e contar é suficiente para a maioria dos portugueses” e que “o povo português … não sente a necessidade de saber ler”, e os fascistas do país vizinho chegavam ao ponto de proclamar “Morra a inteligência” e “Viva a morte!”.

Na Universidade Popular de Setúbal, Bento Caraça sintetizou:

«Cultura e liberdade identificam-se – sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura.»

Esta mesma ideia aparece em várias intervenções de Bento Caraça, nomeadamente na conferência “A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do nosso Tempo”, realizada em 25 de Maio de 1933, a convite da União Cultural “Mocidade Livre”, onde refere que

«A aquisição da cultura significa uma elevação constante, vivida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade.»

Em 10 de Abril de 1935, numa conferência intitulada “Escola Única”, realizada na Sociedade de Estudos Pedagógicos, Bento Caraça esclarece que

«O direito à cultura deve ser realmente reconhecido como direito inerente ao homem e não como um favor, mais ou menos disfarçado, da administração pública.»

E afirma ainda que

«O desenvolvimento harmónico da personalidade é incompatível com a sujeição a condições materiais precárias, ele pressupõe aquele salto do reino da necessidade para o reino da liberdade, de que falava Frederico Engels.»

Identificando cultura e liberdade, Bento Caraça, infatigável militante da cultura, foi naturalmente infatigável militante da liberdade: participou activamente nos movimentos contra os governos fascistas de Salazar, nos movimentos reivindicativos das liberdades democráticas, tendo sido um prestigiado dirigente do Movimento de Unidade Democrática; desenvolveu uma acção permanente em prol da unidade de todos os antifascistas, revelando uma capacidade invulgar para encontrar os pontos de acordo em posições aparentemente divergentes.

O seu pensamento e a sua acção são de uma coerência exemplar e mostram um optimismo esclarecido, proveniente da solidez da sua formação cultural e política, proveniente da profunda confiança que depositava no homem.

Dos confins da história, segundo palavras suas, caminham, ao encontro do homem de hoje, aquelas correntes fecundantes que hão-de fazer dele o homem novo, o criador da sociedade nova – a sociedade onde se extinguirão naturalmente as diferenças entre trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais, a sociedade onde não mais haverá exploração do homem pelo homem; numa palavra, a sociedade socialista.

Meus Amigos!

Bento Caraça tinha plena consciência de que a sobrevivência da espécie humana exige a acção comum, exige a solidariedade entre todos os trabalhadores, manuais e intelectuais – solidariedade que nasce da própria evolução das diversas formas de actividade humana, que aproximam uns dos outros, os trabalhadores manuais e os trabalhadores intelectuais; solidariedade que se reforça pelo reconhecimento de que os trabalhadores manuais e os trabalhadores intelectuais têm os mesmos inimigos.

Na verdade, os que negam aos operários e camponeses o direito ao ensino e à cultura, os que fecham as escolas aos filhos dos trabalhadores, são os mesmos que lançam milhares e milhares de professores para o desemprego; os que exploram a classe operária por conta do capitalismo, são os mesmos que negam créditos à investigação científica fundamental e querem reduzir a actividade científicaa meras aplicações tecnológicas de segunda classe; os que apoiam o fascismo – a ditadura terrorista dos monopólios, especialmente dirigida contra as classes trabalhadoras – são os mesmos que, de 1936 a 1942, mantiveram fechadas todas as escolas normais do País, são os mesmos que, em 1937, extinguiram as escolas oficiais infantis, são os mesmos que reduziram o ensino primário a um nível humilhante, são os mesmos que tantas vezes invadiram as escolas, perseguiram, espancaram e expulsaram professores e estudantes democratas, são os mesmos que instalaram uma censura omnipresente; os que agora aplaudem os assaltos às UCPs do Alentejo e o lançamento de cães polícias contra os trabalhadores alentejanos, são os mesmos que defendem a sujeição às imposições do imperialismo, são os mesmos que comandam a recuperação fascista no aparelho de Estado e nas Escolas

Por detrás daqueles que atentaram contra a vida de militantes operários, por detrás daqueles que incendiaram e destruíram sedes de sindicatos operários e sedes de partidos progressistas e por detrás daqueles que realizaram atentados bombistas contra a Faculdade de Economia do Porto, estão os mesmos indivíduos sem pátria e sem rosto ao serviço do fascismo e do imperialismo.

Bento Caraça tinha, de facto, plena consciência de que os trabalhadores intelectuais e os trabalhadores manuais têm os mesmos inimigos; tinha, de facto, plena consciência de que, actualmente, a classe autenticamente revolucionária é a classe operária, classe cuja particularidade é a de não ser exploradora, classe cujo interesse converge com o interesse do pleno desenvolvimento da ciência. Por isso, tal como fez Paul Langevin, Bento Caraça abraçou a causa do socialismo.

Se fosse vivo, Bento Caraça estaria, neste momento, ao lado de quantos defendem a Constituição da República, ao lado de quantos defendem as conquistas de Abril.

Amigos!

A defesa da Constituição da República, a defesa das conquistas de Abril exige a unidade de todos os antifascistas e, muito especialmente, a unidade de acção dos principais obreiros da Constituição – o Partido Socialista, o Partido Comunista e o Movimento Democrático Português.

Em homenagem a Bento Caraça, é necessário fazermos todos os esforços para que representantes dos partidos operários – do Partido Comunista e do Partido Socialista – e de outras organizações democráticas se reúnam à volta de uma mesa, discutam os principais problemas nacionais, com vistas à elaboração de um programa mínimo de acção comum para a defesa da Democracia, contra as tentativas de assalto ao poder, pela direita reaccionária.

Em homenagem a Bento Caraça, é necessário que o Partido Socialista e o Partido Comunista, na Assembleia de República, cheguem a um entendimento urgente para impedir que o Governo do País seja entregue a um grupo de direita, onde não faltam, talvez, reaccionários mais ou menos comprometidos com o fascismo. Não basta, como é evidente, reconhecer que o actual Governo é o mais conservador após o 25 de Abril. É preciso substituí-lo, quanto antes, por um governo autenticamente democrático, que defenda as conquistas de Abril.

Em homenagem a Bento Caraça, é preciso, com urgência, pôr cobro à violência desencadeada no Alentejo e defender a reforma agrária. É preciso impedir que a terra seja criminosamente tirada a quem a trabalha para ser entregue a quem nunca a trabalhou.

Em homenagem a Bento Caraça, é preciso denunciar o lançamento de cães polícias contra os trabalhadores alentejanos, como um crime a ser julgado, pelo menos, por um Tribunal de Opinião Pública, como um atentado grave contra os direitos do homem. É preciso denunciar o lançamento de cães policias contra os trabalhadores alentejanos, como uma prática fascista, como uma tentativa única de impor, contra as leis do País e contra a moral do nosso tempo, o “direito de propriedade sobre o homem”, como se estivéssemos no tempo dos regimes esclavagistas.

Amigos socialistas e amigos comunistas!

Em homenagem a Bento Caraça, vamos todos juntos participar na manifestação convocada pelos trabalhadores do Porto, para o 1º de Dezembro.

Em homenagem a Bento Caraça, vamos todos unir-nos para acabar com a recuperação fascista, onde quer que ela se manifeste, vamos todos unir-nos para defender a Constituição e abrir caminho ao exercício democrático do poder pelas classes trabalhadoras.

Viva a Unidade Antifascista!

José Morgado

sábado, 9 de fevereiro de 2008

iNFLUÊNCIA PORTUGUESA NA ELEVAÇÃO DO NÍVEL MATEMÁTICO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

Zaluar Nunes (dir.), ?, Ruy Luís Gomes e José Morgado e alunos estagiários e bolseiros do IFM no quintal do Instituto.(entre 1962 e 1966?). Falta Pereira Gomes


Influência Portuguesa na Elevação do Nível Matemático da Universidade Federal de Pernambuco











1. Uma Conferência de Paul Langevin sobre “O Problema da Cultura Geral”

Nesta conferência de Paul Langevin, apresentada ao Congresso de Nice em 1932, publicada em Outubro do mesmo ano em “Pour l’Ère Nouvelle”, pode ler-se o seguinte:

«A verdadeira cultura geral é a que abre o homem a tudo o que não se limite a ele próprio, a tudo o que ultrapasse o círculo estreito da sua especialidade.

Aquilo a que aspiramos sob o nome de cultura viva e humana é a consciência dos vínculos recíprocos entre as diversas actividades passadas e presentes, para preparação do futuro, do parentesco dos espíritos e da fraternidade das obras, é aquilo que dá sentido tão vasto como a própria sociedade ao menor dos esforços, um significado humano à actividade mais humilde. Compreender os outros, saber sair de si e do seu egoísmo para se colocar no ponto de vista dos outros, apreender as suas necessidades, colaborar na sua tarefa como obra comum não será um dos aspectos essenciais da vida moral e social? Essa virtude da humanidade não deveria ser o produto natural e principal das “humanidades”, se querem merecer tal nome?»

  1. Fascismo contra a cultura

É conhecida uma declaração de um dirigente nazi no sentido de que, quando alguém lhe falava em cultura, ele puxava logo pela pistola.

O comportamento de dirigentes fascistas com respeito à cultura, quer se trate de alemães, italianos ou portugueses, é essencialmente o mesmo: puxando ou não puxando pela pistola, é um comportamento hostil.

Em todos os países onde o fascismo alcançou o poder, instalou-se a violência e desencadeou-se uma onda de perseguição contra os professores, sobretudo contra aqueles que entendem que é um dever ajudar os alunos a adquirir espírito crítico e autonomia mental. Ora os governantes fascistas não estão interessados em que os jovens adquiram espírito crítico e autonomia mental.

Como Every Schatzman escreveu no seu livro “La Science Menacée” (pag. 165),

«Um ensino da ciência que não ensine a pensar, não é um ensino da ciência, é um ensino da submissão»

De facto, um governo ditatorial não está interessado em que os estudantes aprendam a pensar, mas está interessado em que os estudantes aprendam a obedecer. Assim, o tipo de ensino consentido pelos fascistas era um ensino da submissão.

Vem a propósito lembrar que, no livro de Victor Farias intitulado “Heidegger e o Nazismo” (p. 120), alude-se a uma conversa entre Karl Jaspers (que estudou direito na República Federal Alemã) e Martin Heidegger (filósofo alemão, professor universitário e reitor da Universidade de Freiburg). Esta conversa teve lugar em Junho de 1933. A certa altura, Jaspers perguntou:

«Como pode V. pensar que um homem tão inculto como Hitler pode governar a Alemanha?»

E o fervoroso nazi Heidegger respondeu:

«A cultura não tem importância» (!)

  1. Os nazis e o campo de educação que pretendiam para a juventude

Esta resposta de um reitor de uma Universidade dá bem a ideia do “respeito” que a ciência e a cultura mereciam dos fervorosos nazis!

O que os nazis pretendiam fazer no campo da educação da juventude está bem patente na declaração de Hitler ao antigo Presidente do Senado de Dantzig, Hermann Rauschnigg:

«Eu quero uma juventude brutal, imprecisa, impávida e cruel» (!)

O desrespeito de Hitler pela palavra dada e a falta de consideração pelos trabalhadores estão bem visíveis no que se passou logo que Hitler alcançou o poder. Assim, no dia 1 de Maio de 1933, foi organizada em Berlim uma primeira grande Festa do Trabalho. Hitler declarou-se, nessa festa, defensor dos operários. No dia seguinte, são suprimidos todos os sindicatos e os seus bens são confiscados!

Muitos exemplos de Hitler foram admirados, ou mesmo seguidos, pelo fascismo italiano e pelo fascismo português.

Em Outubro de 1939, as Universidades alemãs, com excepção das de Berlim, Munique, Iena e Viena, estavam encerradas pelos nazis.

Muitos cientistas italianos foram expulsos das Universidades.

Em Portugal, a propaganda do analfabetismo e as acções contra os professores começaram logo a seguir ao 28 de Maio e agravaram-se depois, quando Salazar assumiu a chefia do governo. Em 1926, foi instituída a censura à imprensa e, em 1926-1927, foram presos e deportados para o ultramar algumas centenas de portugueses.

João Ameal, autor de uma História de Portugal, proclamou:

«Portugal não precisa de escolas (…). Ensinar o povo a ler é corromper o atavismo da raça.» (!)

Salazar, num discurso proferido na Liga 28 de Maio, em Maio de 1935, declarou a certa altura:

«Considero mais um mal que um bem, ensinar o povo a ler, sem preparação moral.»

Numa entrevista a António Ferro, em 1933, Salazar afirmou:

«Considero (…) mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler. É que os grandes problemas nacionais têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.»

O deputado Dinis da Fonseca, na discussão realizada, sobre a Reforma do Ensino Primário, entendeu que a 4ª classe primária não é necessária para a habilitação ao ensino secundário!

O jornalista Costa Brochado, no jornal situacionista “A Verdade”, declarou que tínhamos Universidades a mais (nessa altura, havia apenas três!).

Em 13 de Maio de 1935, foi publicado o decreto nº 25.317, ao abrigo do qual podiam ser demitidos funcionários públicos, sem quaisquer formalidades prévias. Foi invocando este decreto que, em 1935, foram demitidos os professores universitários Sílvio Lima, Aurélio Quintanilha, Rodrigues Lapa, Abel Salazar, Norton de Matos (então professor do Instituto Superior Técnico) e os professores primários Jaime Carvalhão Duarte, Bernardino José da Costa Amaral e Manuel da Silva.

Em 1936, o Estado Novo encerrou as Escolas Normais, impedindo a formação de professores primários, quando a percentagem de analfabetos maiores de 7 anos era superior a 50%. As Escolas Normais só voltariam a funcionar em 1942!

O ensino primário foi reduzido de 4 para 3 anos!

Em 1937, o governo fascista acabou com as escolas oficiais de ensino infantil. Este ensino passou a ser um privilégio da classe que podia pagá-lo.

Em 15 de deste mesmo ano, o artigo de fundo do jornal Escola Portuguesa proclamava:

«Não nos é lícito ensaiar, na actividade docente, ideias que não se coadunam com as que têm presidido ao renascimento da Pátria sob a égide do Estado Novo.» (…).

O artigo de fundo do mesmo jornal, de 13 de Maio de 1937, tinha por título uma frase de Carneiro Pacheco (o mesmo minitro que encerrou as Escolas Normais), que dizia o seguinte:

«De ora avante não haverá nas Escolas Portuguesas nem um professor nem um aluno comunista» (!)

As professoras primárias, para se casarem, passam a precisar de autorização do ministro da Educação Nacional, por decreto de 24 de Novembro de 1936 (!)

A escritora Virgínia de Castro e Almeida, numa altura em que havia 75% de analfabetos, escreveu no jornal “O Século”:

«A parte mais linda e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos» (!).

Alfredo Pimenta escreveu no jornal “A Voz” o seguinte:

«Ensinar o povo a ler e a escrever, para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panfletários sem escrúpulos, ou de facécias mal cheirosas que, no seu beco escuro, vomita todos os dias qualquer garoto da vida airada ou das mentiras criminosas dos foliculários políticos – é inadmissível. Logo, concluo eu, para a péssima educação que possui e para a natureza da educação que lhe vão dar – o povo português já sabe demais (!...)»

Em 1937, são extintas as escolas oficiais infantis; deste modo, o ensino infantil passou a ser um privilégio da classe endinheirada!

Em 1936, são encerradas as Escolas Normais, que só serão reabertas em 1942. Numa altura em que havia mais de 50% de analfabetos, o encerramento das Escolas de formação de professores primários, juntamente com a criação dos chamados postos escolares, onde a escolaridade obrigatória é reduzida de 4 para 3 anos, significa, quer se queira quer não, uma defesa oficial do analfabetismo!

A expulsão de professores dos vários graus de ensino, as deficiências de meios pedagógicos em muitas das escolas existentes, as restrições à independência mental dos professores, as restrições impostas à liberdade de associação de estudantes, tudo isto concorreu para desprestigiar o trabalho dos professores e o trabalho dos estudantes.

Tudo isto concorreu para aumentar o isolamento do nosso País.

Note-se que, em meados do século XVI, tendo em consideração as obras matemáticas de Pedro Nunes (Alcácer do Sal, 1502 – Coimbra 1578) e as actividades desenvolvidas pelos escritores, poetas, historiadores e cientistas portugueses, Gil Vicente,Bernardim Ribeiro, Luís de Camões, Garcia de Resende, Damião de Gois, Frei Agostinho da Cruz, Frei Heitor Pinto, Frei Amador Arrais, Fernão Lopes, João de Barros, Gaspar Correia, Diogo do Couto, Fernão Mendes Pinto, Fernão de Oliveira, Jerónimo Osório, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Duarte Pacheco Pereira, Garcia de Orta, não se poderá dizer que estávamos grandemente atrasados com respeito aos outros Países Europeus, na produção literária, histórica ou científica.

O século XVII foi um século particularmente fecundo em vários domínios científicos, especialmente matemáticos. Basta atender a que, entre os cientistas de então, figuram os cientistas: John Neper (1550 – 1617), Thomas Harriot (1560 – 1621), William Oughtred (1571 – 1630), Galileo Galilei (1564 – 1643), Johann Kepler (1571 – 1630), Blaise Pascal (1623 – 1662), René Descartes (1596 – 1650), Isaac Newton (!642-1727), Gérard Désargues (1593 – 1662), Pierre Fermat (1601-1665), christian Huygens (1629 – 1695), Gottfried Leibniz (1646-1716).

Ora, neste conjunto de nomes, não figura nenhum nome português nem nenhum nome espanhol – sinal claro de que os povos ibéricos viviam isolados dos outros povos, incluindo povos portugueses e povos espanhóis.

  1. Acções de matemáticos e de outros cientistas contra o isolamento

O Professor Alfredo Pereira Gomes foi uma das primeiras vítimas da ofensiva anti-universitária desencadeada pelo governo fascista de Salazar, em 1946-1947.

De facto, Alfredo Pereira Gomes, realizou o seu doutoramento em Matemática, no ano de 1946, na Universidade do Porto. O tema da sua tese foi «Funcionais em espaços sem pontos» e despertou grande interesse, não apenas ao matemático ruy Luís Gomes, membro do júri encarregado de se pronunciar sobre a tese, mas também despertou grande interesse ao matemático francês Jean Dieudonné, ao matemático brasileiro Leopoldo Nachbin, além de outros.

Alfredo Pereira Gomes, no seu artigo datado de Outubro de 1993, intitulado “Recordando Leopoldo Nachbin (falecido em 3 de Abril de 1993)”, informa que, segundo o testemunho de Jean Dieudonné, o matemático português António Aniceto Monteiro expôs o conteúdo da tese de Pereira Gomes no Seminário realizado na Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro, onde exercia funções docentes.

Os dois amigos, Leopoldo Nachbin e Pereira Gomes estabeleceram relações de muita amizade no convívio criado no 1º e 2º Colóquios Brasileiros de Matemática, realizados em Poços de Caldas, em 1957 e 1959, respectivamente.

Tais colóquios congregaram grupos de matemáticos provenientes dos principais Centros Universitários Brasileiros.

Nesses colóquios, a par de um trabalho muito sério, sessões houve em que o bom humor não faltou. Numa dessas sessões bem humoradas, Leopoldo Nachbin foi designado “O Papa da Matemática Brasileira”, o que muito o divertiu e agradou.

Embora a tese de Pereira Gomes fosse considerada de alto nível por matemáticos de grande valor, o governo fascista de Salazar impediu Alfredo Pereira Gomes, não só de exercer funções docentes, mas de exercer quaisquer funções públicas!

Graças, porém, ao notável Curriculum Vitae de Pereira Gomes, em fins de 1950, foram procuradas por Newton Maia, Professor Brasileiro de Matemática, da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, que, por sugestão de Leopoldo Nachbin, se deslocou a França, onde trabalhava Pereira Gomes, para lhe propor um contrato de professor que iniciasse e orientasse um Departamento de Matemática, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Esta Faculdade havia sido criada recentemente pela Universidade Federal de Pernambuco.

A Universidade de S. Paulo tinha, durante a década de 30, importado professores, com o objectivo de fundar departamentos científicos na sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Newton Maia recebera a incumbência do Reitor da Universidade do Recife, Joaquim Amazonas, de contratar três professores universitários, preferentemente de língua portuguesa, com o fim de alcançar, para a Universidade do Recife, o mesmo objectivo que, na década de 30, a Universidade de S. Paulo pretendeu alcançar para si própria.

Após algumas hesitações, o Professor Alfredo Pereira Gomes aceitou a proposta de contrato oferecida pelo Reitor Joaquim Amazonas, por intermédio do Professor Newton Maia, com início em 1 de Janeiro de 1953.

Como julgaram necessários, pelo menos três professores de língua portuguesa, para fundar e pôr a funcionar um Departamento de Matemática, Pereira Gomes lembrou-se do Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia, Manuel Augusto Zaluar Nunes e do professor assistente da Faculdade de Ciências de Lisboa, Marques da Silva, ambos perseguidos pelo governo fascista de Salazar e expulsos da actividade docente.

Marques da Silva mostrou não estar interessado em ir trabalhar para o Recife. Zaluar Nunes respondeu imediatamente, afirmando que, se Pereira Gomes aceitasse o contrato para trabalhar em Recife, então também ele aceitaria um tal contrato.

A carreira de professor universitário, para Zaluar Nunes, começou bastante cedo. De facto, Zaluar Nunes foi nomeado 2º assistente do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em 31 – 10 – 1928, quando ainda era estudante. Em 1930 concorreu ao lugar de 2º assistente do 2º grupo da 1ª Secção da Faculdade de Ciências de Lisboa e foi nomeado assistente livre. Em 1931-1932, prestou serviço nos cursos práticos de Análise Superior, Geometria Projectiva, Geometria Superior e Complementos de Álgebra. Em Novembro de 1933 obteve, da Junta Nacional de Educação uma bolsa de estudos que lhe permitiu frequentar a Faculdade de Ciências de Paris, até fins de Agosto de 1937, onde trabalhou sob a orientação de Maurice Fréchet e Darmois, no Instituto Henri Poincaré e no Instituto de Estatística da Universidade de Paris.

No seu regresso a Portugal, Zaluar Nunes retomou a sua actividade como professor da Faculdade de Ciências de Lisboa e do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras.

No período 1937 – 1940, reforçou-se a luta contra o isolamento. Assim, Zaluar Nunes e António Monteiro, que foram companheiros em Paris, na qualidade de bolseiros, com Bento Caraça e outros, conseguiram formar um grupo de professores jovens e de recém licenciados, dispostos a trabalharem para a renovação e expansão dos estudos matemáticos em Portugal, promovendo na Universidade de Lisboa e, depois, na do Porto, cursos de modernização do estudo da Matemática e procuraram formar investigadores. Zaluar Nunes revelou um interesse muito especial pelas duas revistas: Portugaliae Mathematica e Gazeta Matemática. Sem a dedicação de Zaluar Nunes, é quase certo que não seria possível manter as duas revistas, sobretudo após a saída (de Portugal) de António Monteiro.

Zaluar foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Matemática, seu presidente em 1947, fundador do Instituto dos Actuários Portugueses. Foi nomeado professor auxiliar contratado da Faculdade de Ciências de Lisboa e professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia, donde foi expulso em 1947, por motivos políticos, juntamente com vinte docentes universitários.

A expulsão destes 21 docentes foi mais um poderoso golpe a favor do isolamento que tanto prejudicou o nosso país; foi a favor do crescimento do nosso atraso científico, especialmente do nosso atraso matemático.

Como ensinou Gomes Teixeira,

«Nada há mais prejudicial para a ciência de um povo, do que o seu isolamento no meio da ciência dos outros povos».

O isolamento foi também condenado por Pedro José da Cunha (o primeiro presidente da direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática), que no seu trabalho, “Bosquejo Histórico das Matemáticas em Portugal”, datado de 1929, escreveu o seguinte:

«O avanço científico dum povo só é possível, quando os seus intelectuais estão em contacto permanente com os das nações civilizadas. Precisam manter-se em dia com os novos horizontes que se descobrem, com as novas teorias que se apresentam a explicá-los, com os novos métodos de trabalho que se ensaiam, com a nova orientação que se imprime às investigações. Precisam, numa palavra, conhecer o esforço e o êxito alheios para deles colher lição e ensinamento.»

Até meados do século XIX, não se tinha criado uma tradição de ensino da Matemática em Portugal. Como observou Alexandre Herculano, no seu trabalho intitulado «Da Escola Politécnica e do Colégio dos Nobres», incluído no tomo VIII dos Opúsculos,

«Não era, pois, entre nós, a matemática mais que uma enxertia, uma excepção ou antes, uma aberração das tendências literárias do país»

Nesse mesmo trabalho, Herculano refere-se à fundação do Instituto de Ciências Físicas e Matemáticas (IFM), por Rodrigo da Fonseca Magalhães, em 7 de Novembro de 1835. Fonseca Magalhães foi alvo de muitos ataques, o que naturalmente provocou o seu afastamento da Pasta do Reino, tanto mais que, para o seu lugar foi depois nomeado Luís da Silva Mourinho de Albuquerque, de quem um dos seus primeiros actos foi suspender o Instituto de Ciências Físicas e Matemáticas e suspender a reforma do ensino primário que Fonseca Magalhães havia projectado.

Alexandre Herculano, que era também contra o isolamento escreveu no tomo VIII dos seus Opúsculos:

«Quanta ignorância, quanto pedantismo, quanta preguiça, quanta incapacidade havia na nossa terra, tudo gemeu, tudo gritou e grasnou insultos (…). Não houve remédio: a campa caiu sobre a física, a química, a botânica, a matemática, a astronomia.»

  1. Uma iniciativa do Professor Ruy Luís Gomes

A luta contra o isolamento português conduziu naturalmente os cientistas portugueses a realizarem conferências científicas, a assistirem a conferências científicas realizadas por colegas seus; conduziu cientistas portugueses a contactarem mais ou menos intensamente com outros cientistas interessados em algum tema das conferências feitas. Conduziu a eliminar ou, pelo menos, a reduzir o isolamento que se tinha estabelecido entre os cientistas portugueses e também entre os cientistas portugueses e cientistas estrangeiros.

Por iniciativa do Professor Ruy Luís Gomes, manifestada numa exposição que dirigiu em 11 de Outubro de 1941 ao Professor Celestino da Costa, Presidente do Instituto para a Alta Cultura (IAC), foi criado, em Fevereiro de 1942, o Centro de Estudos Matemáticos do Porto. Do primeiro plano de trabalhos do Centro constam os planos individuais de Luís Neves Real, Manuel de Barros, Manuel Miranda, Almeida Costa e Ruy Luís Gomes. Cada plano contém o programa de um curso e o enunciado de um mais problemas de investigação. Contém também um curso intitulado Funções de Conjunto e seus Invariantes, a ser ministrado por António Monteiro. O plano de trabalho do ano seguinte contém o plano de um novo trabalhador do Centro, a saber, Alfredo Pereira Gomes, que se propôs, além do mais, a redigir um curso, precisamente o curso a ser ministrado por António Monteiro, “Funções de Conjunto e seus Invariantes” a que atrás nos referimos; e o curso a ser também ministrado por António Monteiro, intitulado “Introdução ao Estudo da Noção de Função Contínua”. O curso foi publicado em 1944, nº 8 da Colecção de Publicações do Centro. Foi muito usado por estudantes e licenciados, na década de 40, para efeitos de melhorarem a sua preparação matemática.

A hostilidade da ditadura salazarista não conseguiu impedir a continuação da luta contra o isolamento matemático.

Tinha razão António Monteiro, quando declarou:

«Quando os matemáticos portugueses, sem serem solicitados, sem serem forçados, mas animados do grande desejo de servir a Nação, fundaram a Junta de Investigação Matemática, disseram ao País: para cumprir os nossos deveres, estamos presentes.»

A Junta de Investigação Matemática promoveu a realização de palestras lidas ao microfone da Rádio Clube Lusitânia, cujo proprietário, Júlio Nogueira, colaborou enquanto pode com a Junta. Os autores das palestras então divulgadas foram Ruy Luís Gomes, António Monteiro, Branquinho de Oliveira, Fernando Pinto Loureiro, José Antunes Serra, António Júdice, Armandro Castro, Carlos Teixeira, Flávio Martins e Corino de Andrade.

Nos outros graus de ensino, houve também professores que foram afastados do ensino e houve licenciados impedidos de se profissionalizarem, em consequência de simples informação da PIDE. Foram proibidas as actividades da Sociedade portuguesa de Matemática em todas as dependências do chamado Ministério da Educação Nacional. Vários professores viram-se obrigados a mudar de profissão e outros viram-se obrigados a aceitar convites para irem ensinar em Universidades estrangeiras, a fim de poderem continuar a trabalhar na profissão escolhida.

  1. Outras iniciativas do Professor Alfredo Pereira Gomes

Por iniciativa do Professor Alfredo Pereira Gomes, foi também contratado, em 1960, para trabalhar em Matemática, no Recife, José Morgado, que tinha sido assistente do Professor Zaluar Nunes, no Instituto Superior de Agronomia (Universidade Técnica de Lisboa).

Zaluar Nunes e José Morgado tinham também sido expulsos por motivos políticos, em 18 de Junho de 1947. José Morgado era assistente das cadeiras de Matemática Gerais e de Cálculo Infinitesimal e das Probabilidades. Alfredo Pereira Gomes escreveu um importante artigo intitulado “A Contribuição de Matemáticos Portugueses para o Desenvolvimento da Matemática no Brasil” (artigo incluído em “II Encontro Luso – Brasileiro de História da Matemática, e em II Seminário Nacional de História da Matemática”, Águas de S. Pedro – 23 a 26 de Março de 1997, São Paulo – Brasil). Nesse artigo, A. Pereira Gomes escreveu o seguinte:

«Por minha conta e risco, tomei a iniciativa de convidar José Morgado para vir ensinar na Universidade de Pernambuco e, ao mesmo tempo, convidei um outro companheiro Laureano Barros, distintíssimo colega de curso de Morgado, também afastado autoritariamente das funções universitárias que vinha exercendo. Laureano recusou por motivos familiares, mas José Morgado aceitou o convite e tratava-se de dar execução. Da parte da Universidade de Pernambuco, não encontrei senão facilidades, mas a qualidade de militante político activo, na oposição ao regime de Salazar, tornou as coisas morosas e difíceis do lado português.

Recordo-me de que, em dado momento, escrevi uma carta pedindo cooperação ao Vice-Cônsul do Brasil no Porto. E quando, enfim, no início de 1960, se anunciou a vinda de José Morgado para o Recife, produziram-se dois acontecimentos insólitos:

Fui chamado ao Consulado de Portugal e o Cônsul pretendia que eu assinasse o compromisso “de que o Sr. Dr. José Morgado não viria fazer política no Recife.”

Respondi-lhe prazenteiramente:

“Oh! Sr. Cônsul, eu nem a meu respeito assinaria um compromisso desses! Mas peço-lhe que me diga, sinceramente, se, durante estes sete anos, a minha actuação e a do professor Zaluar Nunes melhoraram ou pioraram a imagem de Portugal no Brasil. Ele acabou por concordar que era preferível arriscar …»

No mesmo artigo, Pereira Gomes afirmou:

«O núcleo de portugueses e os seus discípulos e colaboradores tornavam-se notados, nomeadamente em Portugal, onde a Gazeta de Matemática (nº 79/80, Abril/Setembro de 1960) informava: “A Universidade do Recife contratou, em 1960, o matemático português Prof. José Cardoso Morgado Júnior.” E a seguir : Nos dias 16 e 17 de Dezembro de 1959, o Prof. Manuel Zaluar Nunes, da Universidade do Recife, realizou duas conferências na Escola Politécnica da Paraíba (Campina Grande) intituladas: “O Ensino do Cálculo Numérico nas Escolas de Engenharia”. No Instituto de Física e Matemática, estão sendo ministrados os cursos: 1) “Álgebra Moderna”, pelo Prof. José Morgado; 2) “Teoria Espectral das Álgebras Normadas”, pelo Prof. Pereira Gomes; 3) “Cálculo das Probabilidades e Estatística Matemática” pelo Prof. Zaluar Nunes; 4) “Álgebra Linear” pelo Prof. Roberto Ramalho;5) “Análise Funcional” pelo Prof. Jónio Lemos.

Algumas das mais importantes exposições então realizadas couberam ao Prof. Hugo Batista Ribeiro, contratado por um mês (Julho de 1960); veio ministrar o curso: “Teoria dos Grupos Abelianos: noções, métodos e resultados fundamentais dessa teoria e desenvolvimentos análogos para a Álgebra Universal”. Realizou ainda um seminário sobre a Teoria dos Modelos, o Cálculo de xxxxx e a Álgebra Universal.»

  1. Acção da PIDE contra o Prof. Ruy Luís Gomes

Ruy Luís Gomes, como muitos outros cidadãos portugueses, só pôde regressar a Portugal, depois da revolução vitoriosa do 25 de Abril.

Uma vez em que um seu amigo – o arquitecto Lobão Vital – estava gravemente doente, Ruy Luís Gomes resolveu vir Recife a Portugal para visitar o seu amigo doente e visitar a sua família. A PIDE impediu Ruy Luís Gomes de sair do aeroporto de Lisboa e meteu-o num avião para Paris. A PIDE procedeu deste modo, numa altura em que, o Consulado Português do Recife só fornecia passaportes considerados válidos e, para a PIDE , um passaporte era considerado válido, somente se se destinasse a uma viagem ao Brasil ou ao regresso de uma tal viagem.

O regresso dos exilados, especialmente do Prof. Ruy Luís Gomes foi reclamado pela Oposição Democrática, quer em documentos que a Oposição Democrática correu o risco de divulgar, quer em manifestações populares que as autoridades perseguiam violentamente.

Nas prisões ou fora delas, sempre o Prof. Ruy Luís Gomes trabalhou pela Matemática, trabalhou pela Democracia, trabalhou contra o dogmatismo no ensino.

Na verdade, o Prof. Ruy Luís Gomes, tendo embora admiração por alguns resultados obtidos pelo investigador Louis de Broglie, no sentido de que,

«O ensino é, por sua própria natureza, de tendência dogmática».

Ruy Luís Gomes e Paul Langevin, tiveram, a respeito do ensino, posições muito parecidas.

Vem a propósito lembrar que o cientista Henri Wallon, além de ser médico, também se formou em letras e especializou-se em Psicologia Infantil. Foi Professor de Psicologia na Sorbonne, no Collège de France e na Université de Cracovie. Criou e dirigiu o Laboratório de Psicologia do Instituto de Orientação Profissional e em colaboração com Paul Langevin, elaborou um projecto de reforma do ensino em França., em 1944, ano em que fez parte do Governo de Libertação da França.

Paul Langevin, grande físico francês, publicou mais de 100 trabalhos de investigação e divulgação de Física.

Henri Wallon disse o seguinte, a respeito de Paul Langevin:

«É impossível separar, em Langevin, o físico do filósofo, o filósofo do cidadão, o cidadão do educador.»

Afigura-se-nos que, com respeito a Ruy Luís Gomes, poderíamos afirmar algo muito semelhante:

«É impossível separar, em Ruy Luís Gomes, o matemático do intelectual, o intelectual do cidadão e o cidadão do educador.»

Há pouco aludimos a que Ruy Luís Gomes tinha admiração por alguns resultados obtidos por Louis de Broglie. De facto, dos 67 ou mais trabalhos de investigação e divulgação, publicados por Ruy Luís Gomes, há pelo menos 2, que terão sido influenciados por resultados obtidos por Louis de Broglie, a saber:

“Quelques Considérations sur L’Équation Fondamental de la Nouvelle Conception de la Lumière, de Louis de Broglie” e “Sur la Propriété de L’Opérateur H de Louis de Broglie”,

ambos publicados em 1935, no jornal Rendiconti della Acad. Naz Dei Linci.

Ruy Luís Gomes, à opinião de Broglie, preferiu sempre a opinião de Karl von Humboldt (1767 – 1815), que defendia o seguinte:

1) A investigação científica e o ensino devem estar ligados o mais intimamente possível;

2) Para o completo desenvolvimento da Ciência, é necessária a cooperação de três organismos fundamentais: Academias, Universidades e Institutos de investigação relativamente autónomos.

Note-se que ambos os investigadores e professores, Langevin (1872 – 1946) e Ruy Luís Gomes (1905 – 1984), vivendo em épocas diferentes, lutaram, cada um à sua maneira, contra o dogmatismo no ensino. Ambos desenvolveram notável acção pedagógica, não só nas aulas, mas também fora delas. Esta conclusão pode ser obtida , lendo alguns trabalhos, por exemplo:

de Paul Langevin, recomenda-se a leitura das conferências que fez no Museu Pedagógico, especialmente “O valor Educativo da História das Ciências”, publicado, por exemplo, no seu livro “Pensamento e Acção”;

de Ruy Luís Gomes, recomenda-se a leitura do seu livro “Problemas de Investigação e História”, especialmente “O Valor Social da Investigação Científica”, palestra lida ao microfone da Rádio Clube Lusitânia (6 – 5 – 1944), artigo que termina pelas seguintes afirmações:

«- A investigação científica é hoje um factor essencial de qualquer organização de interesse colectivo;

- A função de investigador tem o carácter permanência de qualquer outra função de interesse social e assim deve ser encarada, tanto pelo Estado como pelos particulares;

- A ciência não se poderá desenvolver em boas condições de continuidade e eficiência, sem entrar em íntima colaboração com a indústria, fornecendo-lhe resultados e recebendo em troca sugestões para novos problemas;

- A Universidade não pode justificar a sua existência, a indústria não pode justificar os seus lucros, senão na medida em que, factores essenciais da economia da Nação, se tornem elementos activos e conscientes de uma elevação do nível de vida do povo português.»

O volume termina com um belo artigo do Professor Luís Neves Real, intitulado “Nota acerca do Professor Ruy Luís Gomes como Professor Universitário e Cientista” e com um excelente artigo do Professor Óscar Lopes em que enaltece a actividade científica, pedagógica e cultural do Professor Ruy Luís Gomes.

  1. Evolução do IFM

A partir de 1960, intensificam-se as actividades matemáticas e físicas extracurriculares em complementação às dos programas habituais, facilitando-se naturalmente a realização de estudos pós-graduação. Como pode ler-se no artigo de Fernando Cardoso, intitulado “Ruy Luís Gomes – Um Matemático Português no Recife”, em 1960, Pereira gomes foi designado membro do Conselho Director do Instituto de Matemática Pura Aplicada (IMPA) e, em 1961, Pereira Gomes e José Morgado foram indicados como membros do Conselho Consultivo do Instituto Central de Matemática da recém fundada Universidade de Brasília.

Intensificaram-se naturalmente as ligações do IFM com os vários centros matemáticos do Brasil. Grande número de matemáticos a caminho de diferentes centros matemáticos aproveitou a oportunidade de fazer alguma conferência em Recife.

Assim aconteceu com Arnoud Denjoy, do Instituto de França, Roger Godement, da Universidade de Paris e François Bruchat da Universidade de Nancy. Godement e Bruchat deixaram resumos redigidos das respectivas conferências, que incluem algo (sobre Variedades Diferenciais e sobre Álgebras de Lie, Grupos de Lie e Aplicações respectivamente)

Estes textos foram publicados como os números 2 e 3 da colecção “Testos de Matemática”, iniciada em 1955 por Pereira Gomes.

Em 1967, teve início o Mestrado em Matemática, por iniciativa dos professores Ruy Luís Gomes e José Morgado. Em 1970, o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) reconheceu a Universidade Federal de Pernambuco (UNPe) como Centro de Excelência para o Mestrado em Matemática; em 1979 o Mestrado foi credenciado pelo Conselho Federal de Educação e a primeira avaliação de Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), feita em 1980, atribuiu ao Mestrado o conceito A, o mais alto possível, conceito que vem sendo mantido desde então. De 1967 até Dezembro de 19999 foram formados (de acordo com o artigo de Fernando Cardoso acima referido) cerca de 133 mestres dos quais mais de 30 concluíram o doutoramento.

José Morgado

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Homenagem ao Professor Ruy Luís Gomes

Almoço de Homenagem ao Professor Ruy Luís Gomes (Porto, 14 de Abril de 1984)

Um grupo de democratas resolveu comemorar o 10º aniversário da Revolução de Abril, publicando um documento em que se lançava a ideia de uma homenagem, de âmbito nacional, ao Prof. Ruy Luís Gomes. A grande receptividade que esta ideia encontrou, está amplamente demonstrada pelos muitos amigos que participam ou se fazem representar neste almoço e pelos muitos outros que quiseram subscrever o nosso documento ou, de alguma forma, se associaram à nossa iniciativa.

É claro que não estranhamos o apoio entusiástico recebido – nós contávamos com tal apoio. Sabíamos que era possível reunir muitos e muitos democratas, de diferentes opções políticas, para homenagear o grande resistente antifascista Prof. Ruy Luís Gomes e defensor das conquistas de Abril.

Sabíamos que, na homenagem ao Prof. Ruy Luís Gomes, se reuniriam, não apenas democratas de diferentes opções políticas, mas também das mais variadas profissões e sectores sociais.

É que, excluindo naturalmente aqueles que por motivo de classe, sempre estiveram e estão contra o ascenso das massas populares, em todas as profissões e sectores democráticos o Prof. Ruy Luís Gomes tem amigos e admiradores.

O psicólogo Henri Wallon disse uma vez, a propósito de Paul Langevin:

«É impossível separar, em Paul Langevin, o físico do filósofo, o filósofo do cidadão, o cidadão do educador.»

Creio que nenhum de nós tem dificuldade em aceitar que, mediante pequenas alterações (como, por exemplo, a substituição da palavra “físico” pela palavra “matemático”), a afirmação de Henri Wallon se ajusta perfeitamente à personalidade do Prof. Ruy Luís Gomes.

De facto, a vida do investigador e professor Ruy Luís Gomes está intimamente ligada à vida do cidadão e resistente antifascista Ruy Luís Gomes. Os vários aspectos por que possamos encarar a vida de Ruy Luís Gomes, não se opõem uns aos outros. Uns e outros são solidários, uns e outros constituem, afinal, a vida do Homem Ruy Luís Gomes.

Na sua luta pela ciência e pela renovação do ensino e, num plano mais geral, na sua luta pela cultura, o Prof. Ruy Luís Gomes encontrou pela frente, como opositor, o capitalismo monopolista, organizado sob a forma de estado fascista e colonialista; e encontrou, ao seu lado, como aliados, os combatentes democratas, os intelectuais antifascistas, os jovens progressistas e os trabalhadores com mais elevada consciência de classe.

Em face desta distribuição de forças, o Prof. Ruy Luís Gomes decidiu seguir o caminho que a sua dignidade lhe impôs – decidiu coerentemente e de uma vez para sempre, acompanhar os combatentes democratas, os intelectuais antifascistas, os jovens progressistas e os trabalhadores mais conscientes e, como não podia deixar de ser, decidiu dar combate ao ,

A opção que tomou, ditada pelo seu sentido de dignidade, não foi difícil; as repercussões para o movimento científico português de então e, em especial, para o movimento matemático português dos anos 40, as repercussões para a sua vida profissional e para a sua vida pessoal, essas, sim foram muito duras. A demissão do seu lugar de professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, a pretexto da sua tomada de posição contra a prisão de uma estudante da mesma Faculdade, a interrupção brutal das actividades em curso para a formação, no Porto, de uma escola actualizada de Matemática, nos anos 40, as muitas prisões da PIDE, os vários julgamentos e condenações nos Tribunais Plenários de Lisboa e Porto, injúrias e difamações, agressões físicas e um exílio de quase quinze anos, são algumas das repercussões que o Prof. Ruy Luís Gomes teve de suportar em consequência da sua opção contra o fascismo.

O mesmo entusiasmo e elevação com que fazia as suas lições de Física Matemática na Faculdade de Ciências do Porto, a mesma dedicação e alegria com que fundou o Centro de Estudos Matemáticos do Porto e colaborou na fundação do Observatório Astronómico do Porto, da Sociedade Portuguesa de Matemática, da Junta de Investigação Matemática e outras instituições científicas, esse mesmo entusiasmo e elevação, essa mesma dedicação e alegria caracterizavam a sua participação em todas as grandes lutas desencadeadas no nosso País pelas liberdades democráticas, pela melhoria das condições de vida do Povo Português, pela Independência Nacional e pela Paz entre os Povos.

Amigos!

Em 20 de Abril de 1949, em Paris, na sala Pleyel, um grande cientista que o Prof. Ruy Luís Gomes muito admirou, Frédéric Joliot-Curie, perante mais de 2000 delegados, provenientes de 72 países e representando um bilião de pessoas, declarou aberto o 1º Congresso Mundial dos Partidários da Paz.

Uma ovação entusiasta acolheu as suas palavras que marcaram a orientação de luta dos Partidários da Paz:

«Nós não nos reunimos para pedir, mas, sim, para impor a paz aos partidários da guerra.»

Joliot-Curie explicou, nesse Congresso, como, no seu combate pela ciência, na sua luta contra a utilização abusiva das descobertas científicas pelos fautores da guerra, foi conduzido à luta pela Paz. Consciente de que as implicações sociais das descobertas científicas reforçam as responsabilidades dos trabalhadores científicos, Joliot-Curie afirmou:

«Os cientistas, colocados em face das suas responsabilidades, não podem ser cúmplices daqueles que uma má organização social deixa explorar os resultados dos seus trabalhos para fins egoístas e malfazejos.

Os sábios não podem constituir-se em uma pequena elite afastada das contingências práticas; como membros, que são, da grande comunidade dos trabalhadores, eles têm de se preocupar com o uso que será feito das suas descobertas. Eles querem que a ciência seja colocada e fique ao serviço do Povo.»

O nosso homenageado de hoje é precisamente um cientista que não ficou passivo e também quer que a ciência seja colocada e fique ao serviço do Povo. Por isso, se levantou contra a organização social que utiliza os resultados dos trabalhos científicos para fins egoístas e malfazejos. Por isso se levantou e se declara contra o capitalismo monopolista.

Esta atitude granjeou-lhe naturalmente o ódio dos fascistas e aliados, mas granjeou-lhe também a admiração e amizade dos patriotas portugueses e dos Partidários da paz de todo o Mundo.

Assim, quando em 1952, esteve preso por tomar posição pública, juntamente com a Engenheira Virgínia Moura, o Operário Albertino Macedo e eu próprio, a favor de um Pacto de Paz e contra o Pacto do Atlântico, foi divulgada uma carta do Presidente do Conselho Mundial da Paz, Joliot-Curie, que dizia o seguinte:

«Paris, 9 de Junho de 1952.

Foi com grande emoção que tomei conhecimento das provações cruéis de que está sendo vítima o meu colega Ruy Luís Gomes, Professor de Matemática da Universidade do Porto – actualmente preso por causa da sua corajosa intervenção a favor da Paz.

O Prof. Ruy Luís Gomes, como cidadão de um país de grande cultura, defende com coragem uma política sincera de Paz, de colaboração pacífica entre os Povos do Mundo. É nessa mesma acção que nós prosseguimos, nos nossos respectivos países, para salvar a Humanidade de uma terceira guerra mundial.

Não se pode duvidar da sinceridade, do valor humano, do pensamento e dos actos de um homem como Ruy Luís Gomes.

É por isso que junto a minha voz à voz de todos os homens desejosos de paz, para reclamar, em nome dos mais altos princípios da Humanidade, que o Professor Ruy Luís Gomes possa livremente, consagrar-se às suas actividades inseparáveis de sábio e de cidadão.

Frédéric Joliot-Curie»

O Professor Ruy Luís Gomes sabe que, na sociedade do futuro, a ciência ocupará um lugar especial. Os conhecimentos científicos elevam a capacidade criadora e elevam a qualificação dos trabalhadores. Por isso, os conhecimentos científicos de alto nível serão necessários a todos os trabalhadores, qualquer que seja o ramo da sua actividade.

Com a conquista da Paz e do socialismo, a técnica será posta ao serviço do homem e não ao serviço da exploração do homem pelo homem; as actividades científicas aproveitarão a toda a Humanidade e não aos blocos político – militares.

Com a técnica ao serviço do homem, as funções não criativas tenderão a ser mecanizadas e automatizadas, sem que isso provoque o desemprego e a fome. Para o homem, liberto da maior parte das actividades não criativas, serão reservadas as actividades de natureza essencialmente criativa e a realização de tais actividades seguirá naturalmente o domínio das conquistas científicas e culturais alcançadas pela Humanidade, as conquistas científicas e culturais que são património de toda a humanidade.

Assim, o desenvolvimento consequente das actividades científicas, a utilização da técnica em benefício do homem, a conquista da sociedade do futuro são, em nossa opinião, inseparáveis da luta pela paz e pelo socialismo.

Por isso, a luta consequente do Prof. Ruy Luís Gomes pelo fortalecimento da cultura matemática em Portugal, pelo incremento da actividade científica no nosso País e a consciência das implicações sociais do desenvolvimento científico conduziram-no naturalmente à participação, ao lado do Povo, na luta pela Paz e pelo socialismo.

Amigos!

É um facto que atravessamos um período de grandes preocupações, quer no plano interno, quer no plano externo.

No plano interno, em consequência da opção capitalista ou neo-capitalista dos que actualmente detêm o poder, vemos deteriorar-se as condições de vida do Povo Português, chegando a estar ameaçado o próprio nível mínimo de subsistência de muitos e muitos milhares de trabalhadores portugueses e correm perigo as liberdades democráticas tão duramente alcançadas com a Revolução dos Cravos.

No plano externo, em consequência da falta de perspectivas do imperialismo e do seu esforço desesperado para tentar sobreviver, vemos o imperialismo lançar-se em provocações directas contra a emancipação dos povos, provocações que constituem sérias ameaças à Paz mundial.

Mas, apesar destes perigos reais para o socialismo e para a Paz, nós, Portugueses, temos motivos muito especiais para não desanimar, temos motivos muito especiais para estar confiantes.

De facto, nós constituímos um povo que sofreu meio século de fascismo e, no entanto, fez Abril!

Constituímos um povo que sofreu as consequências de longas guerras coloniais em África e, no entanto, construímos laços de amizade indestrutível com os Povos Africanos!

Constituímos um povo que, nas prisões fascistas, nos campos de concentração e no exílio, sempre soube cantar e comunicar a esperança, sempre soube cantar e lutar pela liberdade!

Sabemos que capitalismo monopolista não tem futuro em Portugal e que o imperialismo não pode sobreviver à solidariedade entre os povos.

Parafraseando Sampaio Bruno, podemos dizer:

«Contra a ideia do socialismo em Portugal, nada pode coisa nenhuma; nada a diminui, nada a destrói, nem sequer os nossos próprios erros, porquanto ela é a condição histórica e actual imprescindível da nossa nacionalidade.»

Assim, apesar de todos os acidentes de percurso, as conquistas essenciais do 25 de Abril são irreversíveis, quer queiram quer não uns tantos remanescentes do passado fascista e uns tantos pescadores de águas turvas que se aliaram aos inimigos internos e aos inimigos externos do 25 de Abril!

25 DE ABRIL SEMPRE!

FASCSMO NUNCA MAIS!

VIVA O 25 DE ABRIL!

José Morgado